O tendeiro gabava-o: Que era muito bom rapaz, que precisava muito, e que de mais a mais não era pedinchão.

O que o tio Ambrosio queria, com toda esta cantata, era que os freguezes pagassem os serviços que o rapaz lhe fazia a elle, porque decerto pareceria escandaloso que uma vez por[{210}] outra o Venancio não recebesse nada. Mas como os freguezes caíam, dando ao engeitado pão e azeitonas, o tendeiro entendia que ficava uma coisa pela outra, e achava-se desembaraçado para fazer do Venancio seu criado.

Foram passando tempos, e uma vez, que estava na loja o morgado do sitio, um mãos-rotas de generosidade e bizaria, o Venancio disse de repente ao tendeiro, entrando na loja:

—Ó tio Ambrosio, se vocemecê me podesse dar agora aquellas duas libras que lhe dei a guardar, fazia-me favor.

—Ó maroto! pois tu deste-me algumas duas libras?!

—Dei, sim, senhor, ha dois mezes, na occasião em que estava aqui o da Michaela, que foi para o Brazil.

—Ah! maroto, que me perdes! Pois tu já tiveste duas libras algum dia?!

—Tive, sim, senhor, ha dois mezes, e dei-lhas a vocemecê para mas guardar por ser um homem de bem...

—Ó senhor morgado, este maroto está-me a envergonhar!

—E o tio Ambrosio está-me a roubar, disse serenamente o Venancio.