Na rua do Oiro encontrava um conselheiro. Cumprimento respeitoso.
—Criado de v. ex.ª, sr. conselheiro.
Não deixava nunca de vêr os conselheiros, apesar de todo o seu gosto, ao passar na rua do Oiro, consistir em vêr as mulheres ou, mais propriamente ainda, em vêr os pés das mulheres.
Se parava uma carruagem á porta de uma loja, tambem elle parava, com delicado disfarce, para vêr saltar do estribo uma dama.
Não tinha esta escola moderna dos que fazem tudo descaradamente, parando e observando com petulancia. Nada disso. Elle via o pé, media-o com os olhos, calculava, pelo pé, as dimensões da perna, ficava sabendo a côr e a qualidade da meia, mas, se alguem, encontrando-se com elle, lhe adivinhava a intenção, disfarçava a olhar para uma vitrine ou a lêr um cartaz.
Só ao cabo de alguns annos de convivencia, eu consegui conquistar a familiaridade precisa para lhe fallar nos pés das mulheres.[{217}]
—O sr. Seabra pella-se por vêr um pé bem feito!
—Gósto!... gósto!
E d'ahi a pouco parou uma carruagem, apeiou-se uma senhora, que deixou vêr, sobre o estribo, um pé digno da admiração do Seabra.
—Então, sr. Seabra! disse-lhe eu. Repare, que vale a pena.