Os slavos do sul só modernamente attingiram na litteratura a fórma dramatica. Annibal Lusitch foi quem primeiro escreveu para o theatro, começando elle e os seus imitadores per seguirem o rasto dos poetas italianos, Metastasio, Alfieri, Guarini. Foi Estevão Popovitch quem comprehendeu que os assumptos nacionaes convinham ao theatro. Entre as suas producções merece especial menção a comedia Belgrado na antiguidade e em nossos dias, que teve um grande successo nos theatros provisorios levantados em Agram e Belgrado. Popovitch foi pois o Eschylo da Servia; Martinho Ban, auctor dos dramas Lazaro e Meirima, póde ser considerado o Sophocles servio. A Meirima tem por assumpto o amor de um christão por uma mussulmana, assumpto que, posto fosse tratado por Voltaire e Byron, offerece comtudo um certo encanto de execução.
Entre as creações phantasticas da poesia popular da Servia devem contar-se as vilas, a[{240}] que chamamos feiticeiras, á falta de melhor vocabulo, mas que são creaturas mysticas, que presidem aos votos do povo e que pairam silenciosamente sobre a existencia dos homens. São ligeiras e bellas, diz Reinach; o vento brinca, passando, com os seus longos cabellos. Habitam sobre as colinas, perto dos regatos, sobre o Lotchen, cujo cimo, onde a tempestade ruge incessantemente, é coberto de neves eternas.
Mas se as vilas são os genios bemfasejos da Servia, existem, em opposição a ellas, espiritos maleficos, que trabalham pela perdição do genero humano. São os viétchizés que, flucctuando nos ares, surprehendem os pastores adormecidos, abrem-lhes o peito com uma vara magica, fixam o dia da sua morte, comem-lhes o coração, fecham de novo o peito das victimas e desapparecem.
Quando os pastores acordam, sentem-se abatidos, doentes. E pouco depois expiram.
Mas uma das creações mysticas que mais impressionam a imaginação slava é o vampiro, que se alimenta da carne dos cadaveres e do sangue dos vivos.
Entre os typos dos pesmas heroicos, o mais notavel é Marko, o Cid e Roland da Servia.
Mas, percorrendo o cancioneiro servio, são as canções de amor as que mais nos encantam. Terminaremos este ligeiro artigo com uma canção amorosa, que rompe dos labios de uma[{241}] rapariga: «Ó tchardak (leito), um fogo abrazador me devora: ninguem, durante a noite, está á minha direita ou á minha esquerda; revolvo com o meu corpo a coberta, e com a coberta as, minhas dôres.» E o namorado responde-lhe: «Ó Mileva, assenta-te a meu lado. Nós não somos selvagens, nós sabemos onde se deve beijar: as viuvas entre os olhos, as solteiras entre os peitos.»
FIM
INDICE
| Pag. | ||
| I | O primeiro mosquito | [5] |
| II | A comedia das praias | [11] |
| III | N'uma praia solitaria | [20] |
| IV | Os frequentadores das praias | [30] |
| V | Casos... | [38] |
| VI | Á volta dos pés da imperatriz | [56] |
| VII | Loucura alegre | [65] |
| VIII | A mascotte | [73] |
| IX | Era em abril... | [80] |
| X | A felicidade e a camisa | [85] |
| XI | Morte de um gentleman | [91] |
| XII | A «season» lisbonense em 1883 | [100] |
| XIII | Gostos não se discutem | [106] |
| XIV | Peccadilhos metricos | [115] |
| XV | Os amaveis | [130] |
| XVI | A sepultura d'um traidor | [137] |
| XVII | A caminho do Alemtejo | [148] |
| XVIII | A mulher | [155] |
| XIX | O carnaval... | [163] |
| XX | O chapeu | [171] |
| XXI | Os antipodas | [181] |
| XXII | As uvas | [190] |
| XXIII | Pessoas conhecidas de vossas excellencias | [197] |
| XXIV | Comer a dois carrilhos | [207] |
| XXV | O ultimo puritano | [212] |
| XXVI | Os principes do Perú | [221] |
| XXVII | A poesia da Servia | [229] |