É, no fundo, a mesma lenda, talvez um symbolismo mythico transformado em anecdota historica, como julga Husson.
Lembram ainda em seu abono o instincto artistico da poesia popular, que sempre celebrou as mulheres de pés pequenos. E adduzem exemplos:
Tendes o pé pequenino,
Do tamanho d'um vintem:
Podia calçar de prata
Quem tão pequeno pé tem.
A verdade é que o arsenal de defesa dos que assim pensam está copiosamente abastecido de citações e referencias, a que esses taes poderão recorrer para seu triumpho.
Na écloga segunda de Bernardim Ribeiro,—de que os seus biographos tanto se têem servido para dilucidar a mysteriosa vida do poeta—é[{59}] tambem pelo pé de Joanna que o pastor Jano se deixa fascinar amorosamente.
Jano anda guardando o seu rebanho quando vê aproximar-se Joanna que, vestida de branco, se entretém colhendo flôres. Elle occulta-se espreitando-a. Colhidas as flôres,
Joanna, as abas erguidas,
Entrar pela agua ordenou;
E assentando-se, então
As çapatas descalçou,
E, pondo-as sobre o chão.
Por dentro d'agua entrou,
E a Jano pelo coração.
Ah! que é preciso uma pessoa ser cega de enthusiasmo pelo bucolismo, pela infancia poetica da alma portugueza, tão simples, tão sincera e ao mesmo passo tão docil, para não morrer de apoplexia fulminante ao soar-lhe nos ouvidos este plebeu vocabulo çapatas, tão grosseiro e saloio, como elle nos sôa hoje!
Bernardim, esse favo de saudades a que o tempo não tem roubado a doçura, essa abelha do amor, que usurpou ao Hymetto o segredo de amelar deliciosamente as suas trovas com as boninas do coração namorado, parecer-nos-ha, se o não avistarmos de alto, um camponio da Ribaldeira a gabar as çapatas amarellas da moça do prior!
Mas o pastor Jano não teve mão em si que não sahisse do escondrijo ao encontro da bella[{60}] zagalla. Ella, como Galatéa, esquivou-se fugindo: