Muito perto estava o casal
Onde vivia o pai d'ella,
Que fez ir mais longe o mal.
Que Jano teve de vêl-a:
Mas o medo que causou,
Joanna partir-se assi,
Tanto as mãos lhe embaraçou,
Que a çapata esquerda, alli,
Com a pressa lhe ficou.

Agora é que o ridiculo da situação parece subir de ponto, porque o pastor Jano—o proprio Bernardim talvez—corre a abraçar-se com a çapata, a chorar sobre ella, çapatando os peitos. É textual.

Çapata, deixada aqui,
Para mal de outro mor mal,
Quem te deixou, leva a mi:
Que troca tão desegual!
Mas pois assim é, seja assi.

Foi, portanto, pelo pé de Joanna que o pastor Jano se sentiu arrastado para o abysmo do amor,—com a çapata na mão.

Como os tempos mudam! Hoje, um poeta palaciano, que ouzasse cantar em publico, ainda mesmo sob o disfarce de pastor, a çapata da bem-amada, era um homem que tinha a sua carreira cortada pelo ridiculo.[{61}]

A Academia, elegante como ella é, diria, se alguem lhe fallasse em admitil-o socio correspondente:

—Que! O da çapata?! Não póde ser! Elle que mude para chapim.

Qualquer ministro do reino, com receio do ridiculo das gazetas, se algum influente politico lhe pedisse que fabricasse deputado o poeta, responderia sorrindo:

—Ora adeus! O deputado da çapata?! É lá possivel! Você quer matar o governo pelo ridiculo!

Todavia a Academia Real curva-se—e n'este ponto curva-se bem—perante Bernardim Ribeiro, o primeiro poeta bucolico portuguez.