As gazetilhas em verso fariam uma troça de seiscentos diabos ao anonymo que ouzasse mandar para o Diario de Noticias o seguinte annuncio:

«Ha oito dias que estou beijando incessantemente a çapata que v. ex.ª perdeu em Cascaes quando, para me fugir, entrou precipitadamente no banho. A çapata entrou-me pelo coração, como V. ex.ª pela agua.»

Nada obstante, se os redactores de gazetilhas vissem entrar Bernardim Ribeiro no escriptorio do jornal, vestido de mendigo, como a lenda nol-o pinta á volta de Saboya, roto e esfrangalhado, e se elle lhes dissesse que era o auctor do livro das saudades, os srs. redactores[{62}] levantar-se-iam respeitosos, curvados e dominados, para offerecer uma cadeira ao grande poeta Bernardim Ribeiro, que devia estar cansado, por vir de longes terras.

Mas, á parte o desprimor archeologico do vocabulo, emerge d'esta trova do bucolista o naturalismo, vivo e quente, que endeusa a pequenez do pé feminino.

Parece-nos galante toda a conjunctura em que um pé de fada se descubra aos nossos olhos na sua exiguidade microscopica, seja pulando sobre o tapete de um salão, poisando no estribo d'uma carruagem, ou aquecendo na concha ardente das nossas mãos aduncas...

Conta frei Luiz de Sousa que o infante D. Fernando, tendo casado com D. Guiomar Coutinho, em torno da qual se agitou a paixão dramatica do marquez de Torres Novas, e «subindo ambos uma escada, em tempo que andava pejada D. Guiomar, lhe lançou mão dos chapins para que tivesse menos pena na subida.»

Gentil, não é?

Todas as delicadas galanterias que se façam aos pés de uma mulher, suppõem que o que n'elles encantou foi a perfeição com que a natureza os talhou no marmore.

Enumerar todos quantos poetas, antigos e modernos, têem cantado os pés femininos, seria o mesmo que encher de versos uma bibliotheca.[{63}]

Temos, pois, que resignar-nos, quanto ao numero, a dar apenas insignificantissimas amostras.