De um poeta antigo; Rodrigues Lobo:
As flôres, por onde passa,
Se os pés lhe acerta de pôr,
Ficam de inveja sem côr
E de vergonha com graça.
Qualquer pégada que faça
Faz florescer a verdura,
Vai formosa e não segura.
Citarei apenas dois poetas modernos.
É conhecidissimo o bello pensamento de João de Deus:
O que te falta pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
O soneto A Borralheira, de Luiz Guimarães, é dos mais scintillantes da sua lyra ardente:
Meigos pés pequeninos, delicados
Como um duplo lilaz,—se os beija-flôres
Vos descobrissem entre as outras flôres,
Que seria de vós, pés adorados!Como dois gemeos sylphos animados,
Vi-vos hontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores...
Mas, ai de mim!—como os mais pés calçados[{64}]«Calçados como os mais! que desacato!
Disse eu.—Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideial, fantastico, secreto...»Eil-o. Resta saber, anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.
A sabedoria da antiguidade, formulada em proverbios, que são como que migalhas de philosophia, impõe-se ao nosso espirito na immensa variedade de assumptos que podem impressional-o.
Ora os antigos diziam: Ne quid nimis. Nada que seja de mais. Eu fui educado com velhos, e aprendi da sua experiencia. Se n'aquelle proverbio posso calçar um pé de mulher, acho que o proverbio é bom, e que o pé é ainda melhor. Se não posso, quer-me parecer que os meus velhos educadores me estão segredando em espirito com a auctoridade dos seus cabellos brancos: «Ahi ha pé de mais e proverbio de menos.»
Ne quid nimis ou, como dizem os francezes, Rien de trop... até nos pés![{65}]