A sua mascotte era uma escova de fato, que o não abandonava jamais.
Justamente, tendo de partir para Torres Novas, onde se assignalou pelo seu valor, esqueceu-lhe metter dentro da mala a escova. E, por não querer separar-se d'ella em tão duvidosa occasião, metteu-a dentro da barretina.
Em Torres Novas, durante a refrega, recebeu uma cutilada na cabeça. O golpe tel-o-ia[{79}] prostrado, se entre a barretina e a cabeça não estivesse a escova,—a que ficou devendo a vida.
Falta-me o espaço para referir outros muitos casos não menos interessantes e justificativos. E tenha pena! O leitor começaria talvez por sorrir-se; mas acabaria decerto por acreditar.
Toda a gente, por muito que finja o contrario, tem as suas superstições.[{80}]
IX
Era em abril...
C'était en avril, un dimanche,
Oui, le dimanche!
J'etais heureux...
Vous aviez une robe blanche
Et deux gentils brins de pervenche,
Oui, de pervenche,
Dans les cheveux.Nous étions assis sur la mousse,
Oui, sur la mousse,
Et sans parler,
Nous regardions l'herbe qui pousse,
La feuille verte et l'ombre douce,
Oui, l'ombre douce,
Et l'eau couler.Un oiseau chantait sur la branche,
Oui, sur la branche.
Puis il s'est tu.
J'ai pris dans ma main ta main blanche.
C'etait en avril, un dimanche,
Oui, le dimanche...
T'en souviens—tu?[{81}]
Ah! como esta deliciosa canção primaveral de Eduardo Pailleron concentra em si todos os perfumes, todos os canticos, todos os sonhos de abril, quando o laranjal florido deixa cair da sua côma, semelhante a um bouquet de noiva, não sei que doces pensamentos de amor, não sei que fragrancias de boudoir, que estonteamentos de volupia, cheia de mysterios, de segredos e de arrulhos maviosos!? A olaia põe no terreno grandes manchas encarnadas, tapetes de petalas soltas, que se alastram convidando ao remanso d'um idyllio, oui, d'un idylle...
No ar, passam foliando os assobios estridulos dos melros e da flauta de Pan, dando uma extranha sensação de prazer vibrante, sobretudo se brilha no céu o bello sol ocioso d'um domingo... oui, le dimanche!