De repente, descendo o Chiado, passa um trem. O cocheiro olha para mim, e pára. Ó felicidade! era o cocheiro que eu procurava! De dentro da caixa da almofada tirou elle a minha querida bengala, e eu tirei da algibeira dez tostões que lhe dei como alviçaras.

O cocheiro, que via pagar por dez tostões uma bengala que valeria seis vintens, ficou a olhar para mim, espantado.

Suppoz, talvez, n'aquelle momento, que eu era filho do sr. Monteiro da rua do Alecrim.

Que boas horas de alegria que eu tive, readquirindo a posse da mascotte, a minha querida bengala! Nadando em jubilo, fui dizer ao commissario de policia que a bengala tinha apparecido. E á noite, contando a historia do feliz achado aos meus amigos, recebi parabens.

Rodaram alguns annos, durante os quaes tive sobejos motivos para firmar a minha crença no[{78}] condão maravilhoso da bengala. Era decididamente uma mascotte.

Mas um dia—que terrivel dia esse!—por acaso, n'uma esgrima simulada, a bengala partiu-se. Deus perdôe a quem, com a mais amavel intenção d'este mundo, contribuiu para esse medonho fracasso. Guardei durante algum tempo os dois fragmentos da bengala, mas o seu condão de felicidade tinha-se partido com ella, ai de mim! A mascotte havia fugido, como uma alma abandona um corpo.

O leitor póde sorrir-se da minha ingenua credulidade, mas eu cria cegamente na virtude d'esse talisman, que um acaso me trouxe, e que um acaso levou.

Não ha philosophia que resista aos factos.

De varias pessoas sei eu que tiveram mascotte, e que criam n'ella como em Deus.

Uma d'essas pessoas era o general José de Vasconcellos Correia, que morreu conde de Torres Novas.