Embrulhava-se n'um manto de retalhos, uma capa de pedinte que, á força de remendada, já não tinha côr propria.

Lia, com profunda indifferença, o destino dos outros, seguindo com a vista as linhas que elles tinham gravadas na palma da mão. Annunciava tragedias, desgraças, coisas tenebrosas com a mesma serenidade com que promettia riquezas, venturas, delicias.

O rei soube que tinha apparecido na kermesse aquella cigana, e mandou-a chamar.

—Quero que me digas, ordenou-lhe o rei, se posso ainda ser feliz.

A cigana, sem parecer preoccupar-se com a honra que lhe era dispensada, respondeu laconicamente:

—Sim. Ainda póde ser feliz vossa magestade.

Alegrou-se subitamente o rei e perguntou-lhe:

—O que é preciso fazer para que eu seja inteiramente feliz?

A cigana demorou-se um momento consultando as linhas da real mão, e respondeu:

—Precisa vossa magestade vestir a camisa de um homem feliz.