XI
Morte de um gentleman
(Barão da Torre de Pêro Palha)
Foram-se os deuzes, depois os heroes, por ultimo parece que tambem vão acabando os homens...
Os homens antigos, entenda-se, os homens de rija tempera, fortes, destros, gentis, bem educados.
Bem educados, sobretudo, que tambem isso faz muito ao caso para a disciplina social, para a harmonia das classes, para a ordem que não póde deixar de ser a base do respeito que as diversas categorias se devem umas ás outras.
Os homens que viram nascer a liberdade, que a sonharam e implantaram, e que tinham por ella esse culto dedicado que se conserva por uma creança que educamos a nosso geito...
O que ahi vae ficando já não são homens medidos pelo estalão que outr'ora marcava a[{92}] estatura moral. Como na Grecia antiga, foram-se os Milciades, os Themistocles, talvez os Pericles. Não tardará o tempo em que se levantem trezentas e sessenta estatuas a Demetrio Phalerio, quero dizer, aos heroes da decadencia. Se não ha melhor!
Generaes illustres, oradores proeminentes, sabios conspicuos, tudo isso tem desapparecido a pouco e pouco. Até vae desapparecendo tambem um typo que parecia fundido de uma costella de cavalleiro e d'outra costella de trovador: fundido dos restos meio heroicos e meio galantes da idade-media. Era o gentleman, que sabia montar a cavallo, bater-se em duello, fallar ás damas, dançar uma valsa, entrar n'um salão. Era o gentleman, que punha o chapeu na cabeça diante de um insolente, e que o tirava quando á portinhola de uma carruagem cumprimentava uma senhora. Era o gentleman, que não parecia ridiculo quando vestia uma calça de ganga e calçava umas luvas côr de açafrão. Era o gentleman... Morreu outro dia um; desconfio que foi o ultimo...
Chamava-se Hugo Owen, barão da Torre de Pêro Palha.