Não fez discursos, não fez leis, não escreveu livros, não compoz óperas, mas conquistou o direito a ser conhecido e estimado dos seus contemporaneos.

Por que? Porque foi um gentleman. Eis tudo...[{93}]

Seu pai, um inglez de distincção, militara ao serviço de Portugal no tempo em que os espiritos mais generosos principiavam a sonhar com a liberdade.

Casára, ficára entre nós; e o filho, direito como um pinheiro novo, esvelto e firme, passou os primeiros annos da vida montando garbosamente a cavallo no séquito de D. Pedro IV, improvisado, quasi por galanteria, em seu ajudante de campo.

Zuniram-lhe as balas do cêrco do Porto por cima da cabeça, ouviu de perto o estrondo da metralha, fortificou-se respirando a fumarada da polvora.

Depois... depois a guerra acabou, os vencedores julgaram que tudo o que havia a fazer pela liberdade estava feito, quanto se enganaram! e os vencidos presumiram-se decerto as ultimas victimas das luctas politicas em Portugal. Quanto se enganaram tambem!...

Hugo Owen casou com uma dama portugueza, amou-a extremosamente, era rico, forte, alegre, feliz.

Mas a roda da fortuna encravára-se um dia; parou de subito. A esposa de Hugo Owen morrêra deixando-lhe filhos pequeninos. No coração do viuvo fez-se um vácuo profundo, enorme. E aqui começa a serie das suas desgraças, quaes poucos homens teem soffrido, e que elle aguentou sem se azedar a ponto de parecer[{94}] malcreado e sem se mostrar desgostoso ao extremo de querer descalçar as luvas para sovar a humanidade.

Pois se o fizesse, teria tido razões de sobra para isso...

As difficuldades levantavam-se-lhe debaixo dos pés, a fatalidade andava inventando para elle casos imprevistos e complicados, como um advogado chicaneiro que não pensa senão em urdir uma rêde de rabulices para embaraçar a parte contraria.