Um dia, Hugo Owen assistia á agonia de um filho, que a morte viera surprehender prematuramente.

O coração do pae despedaçava-se atormentado contra esse leito, como a vaga contra os rochedos.

Havia já na face do moribundo a pallidez que parece ser o reflexo longinquo do luar de além-tumulo.

Os irmãos soluçavam, abafados de angustia, e o pae, pendido para o leito, disfarçava a sua dôr murmurando palavras carinhosas, de uma grande ternura dolorida, sobre a cabeça do moribundo.

N'isto, rompe n'um dos andares do predio a esfusiada musical de uma valsa de Strauss, sente-se dançar ruidosamente, pular, conversar, tinir loiças e cristaes.

Está-se em plena soirée, e a festa parece prolongar-se[{95}] pela noite dentro, attingir a madrugada.

É no som da valsa que o moribundo se contorce no delirio da agonia, é a dois passos da vida alegre da sala que o espectro da morte vem assentar arraiaes.

Teriam tido conhecimento d'esta deploravel antithese os que se estavam divertindo? Certamente que não. Mas essa tormentosa coincidencia tinha-a o destino guardado para esmagar o coração do barão da Torre de Pêro Palha.

Uma sua irmã, Fanny Owen, morreu na flôr dos annos, sacrificada a um drama conjugal que enche muitas paginas de um livro de Camillo Castello Branco, No Bom Jesus do Monte.

Foi casada, e morreu pura. Os medicos que procederam á autopsia, assim o affirmaram sob juramento.