Pois bem! um anno depois da morte de Fanny, contado dia a dia, Hugo Owen, estando n'um hotel de Lisboa, ouviu gemer n'um quarto proximo.
—Quem está ali doente? perguntou.
—É o sr....
Era o marido de sua irmã, o marido que tão allucinadamente a aggravára, que vinha morrer a dois passos de distancia do barão da Torre de Pêro Palha!
E, como estas, outras mil contrariedades e[{96}] coincidencias, que o destino baralhava para o atormentar, expressamente...
Eu conheço a biographia de Hugo Owen em tudo o que ella teve de mais intimo e recondito. Sómente não estou auctorisado a contal-a. Conheço-a, porque elle me confiou um dia as suas memorias, que se conservam inéditas; paginas que elle escrevia com a verdade e o respeito de um homem que se julga já diante de Deus contando o que soffreu entre os homens.
Encontrei nas memorias do barão o material preciso para urdir dez romances sem dar tratos á imaginação. Em cada capitulo havia um drama de lagrimas. Li o manuscripto, sentindo-me muito honrado com a confiança que o barão depositava em mim, fechei-o profundamente commovido e sepultei no fundo do meu coração o segredo das suas revelações, tão pungentes e dilacerantes.
Ás vezes, quando conversava com o barão da Torre de Pêro Palha debaixo da Arcada ou á porta da Casa Havaneza, assombrava-me a sua resignação, espantava-me a sua paciencia, a correcção sempre distincta das suas palavras e das suas maneiras.
E todavia elle estava tão pobre, que mal poderia esperdiçar um charuto...
Os que o não conheciam de perto, poderiam suppôl-o um homem feliz.[{97}]