A «season» lisbonense em 1833

Este inverno promette uma season verdadeiramente notavel: salas que raramente se abriam, como as dos condes de Porto Covo, reanimam-se e povoam-se; o presidente do conselho de ministros receberá ainda quatro vezes durante os dois mezes proximos.

Fallemos principalmente das soirées da presidencia, notaveis mais que todas por serem o ponto de reunião dos grandes vultos da politica portugueza na casa do primeiro entre os primeiros.

Quem vir o sr. Fontes Pereira de Mello nas recepções officiaes do paço, nos actos solemnes da vida parlamentar, com o seu aspecto severo e frio, com a sua figura correcta e grave, terá avaliado apenas superficialmente este homem de estado que tem, como nenhum outro, a[{101}] consciencia das funcções de que se acha investido e das situações em que se acha collocado. É preciso, porém, avalial-o chez lui, tendo uma phrase amavel para todas as pessoas que concorrem ás suas recepções, sabendo fallar ás senhoras e aos politicos, percorrendo todas as salas para ser attencioso com todos, conversando litteratura com os escriptores, politica com os homens de estado, accommodando-se com distincção a todos os assumptos e a todas as idades, sem constrangimento e sem esforço.

Um estrangeiro, um viajante, um touriste não encontraria decerto melhor occasião para conhecer todos os homens notaveis de Portugal do que aquella que as soirées do presidente do conselho lhe podem fornecer.

Aqui, um pouco curvado, o cabello levantado e branco, faces córadas, um sorriso docemente ironico, deixando vêr atravez das suas lunetas uns olhos penetrantes e expressivos, o ministro de Portugal em Madrid, vice-presidente da camara dos pares, passa nas salas, sobraçando a claque. É um erudito, um professor, um academico, que consome a maior parte dos dias na Torre do Tombo a revolver o archivo. Para os litteratos é o auctor de Um anno na côrte; para os academicos é o auctor da Historia da linha de demarcação que repartia o mundo entre Portugal e Castella, o recente annotador do Roteiro de Lisboa a Goa; para os politicos é um estadista[{102}] e um diplomata de primeira ordem, é ainda o auctor dos Perigos; para os indifferentes é o sr. Andrade Corvo.

Ali, debruçado sobre a meza do whist, na curvatura interessada dos myopes, um homem magro e sêco, de uma magresa forte e resistente, pondo ás vezes por cima dos oculos afumados o seu lorgnon, interroga o parceiro com a sua voz mansamente timbrada: é o poeta do Avè Cesar e do Pavilhão negro, o dramaturgo dos Primeiros amores de Bocage, o romancista dos Bandeirantes, orador, estadista, diplomata, academico, é Mendes Leal, emfim.

Acolá, o ministro dos negocios estrangeiros, Antonio de Serpa Pimentel, conversa animadamente, encostando o seu corpo franzino ao angulo de uma meza, fazendo girar rapidamente o cordão da sua luneta, e sorrindo: eis aqui um outro homem de estado que é ao mesmo passo um poeta, um prosador, um critico e um academico.

Na sala de baile, a figura esvelta e forte de Thomaz Ribeiro destaca-se: a gran-cruz escarlate, atravessada sobre o peito largo, anima-lhe o busto: os cabellos grisalhos, como que ligeiramente empoados, têem por vezes fulgurações instantaneas.

N'um fauteuil, Julio de Vilhena observa com os seus olhos penetrantemente meridionaes, sorri com vivacidade aos que lhe vão fallando,[{103}] e retorce descuidadamente a guia esquerda do seu pequeno bigode.