«Lia, annotava,—escreve Julio Machado—commentava todos os livros, lidando desde o romper da manhã, dormindo duas horas apenas, e lastimando essas duas horas perdidas.
«Andava preoccupado, andava triste e inquieto. Haviam-lhe mentido todos os seus oraculos d'outr'ora, e já não acreditava mesmo em si proprio. Tornou-se-lhe{21} tudo escuro em redor. Não tinha uma venda nos olhos, mas principiou a tel-a na alma. Os seus amigos inquietaram-se do estado em que o viram. A extrema actividade de espirito perturbou-lhe a acção cerebral, mas a lealdade do seu caracter generoso nem então se desmentiu; imaginava-se rico, altamente collocado, offerecia-nos dos seus haveres, e instava para que aceitassemos.
«No breve intervallo que mediou da revelação d'esse estado á sua reclusão, comprou livros por toda a parte, muitos livros, todos os livros que encontrou. Mas, a essa hora já estava perdido.
«As faculdades da sua intelligencia haviam-se adulterado e estalaram como as cordas d'um instrumento[2].»
Estava irremediavelmente perdido,—estava louco; tinha morrido para a familia, para a sociedade, para a patria, e todavia vivia ainda em Rilhafolles. O seu estylo cadente, cheio, fogoso, elegante, a par da sua linguagem ás vezes incorrecta, denunciava para logo um temperamento nervoso-sanguineo.
A exaltação dos pensamentos, as scintillações differentes e successivas, a variedade febril dos tons, a riqueza caprichosa do colorido, a escolha variada dos assumptos, e até as mesmas imperfeições revelavam ao physiologista litterario a organisação de A. P. Lopes de Mendonça.{22}
Nas Memorias d'um doudo, tudo é febril, tudo escalda, tudo denuncia o homem.
Lopes de Mendonça era realmente uma organisação de artista que participava da vivacidade cerebral do temperamento nervoso e da animação caracteristica do temperamento sanguineo. Era um escriptor modelado pela definição em que Emilio Deschanel procura daguerreotypar o artista: «Temperamento rico, sensibilidade ardente, imaginação fecunda, ao serviço d'um coração generoso, d'um bom senso delicado e d'uma razão elevada.»
Elle mesmo, o infeliz Lopes de Mendonça, apreciando um escriptor contemporaneo, definia o artista:
«Todo o segredo d'esta excitabilidade intellectual reside, não nos poupamos a repetil-o, em que é artista, completa e essencialmente artista. A sua razão philosophica, é mais d'uma vez desvairada pelos caprichos da sua phantasia. E todavia, o escriptor é logico, é racional e concludente, em cada uma das posições que alternativamente occupa. Hoje, reflectido e maduro, elevado ás austeras e mornas regiões do homem de estado, apresenta os mais sensatos alvitres, expõe os problemas com a mais fina e lucida critica, e corta os obstaculos, resguardando e salvando os interesses, percebendo todas as conveniencias, pesando todos os conflictos da opinião, e apalpando o terreno social como dextro e instruido estrategico.