«Ámanhã, desempedido e solto n'uma questão puramente litteraria, n'um ponto moral ou metaphysico,{23} vê-o-heis enthusiasta d'um brilhante paradoxo, comprazer-se em destruir as idéas recebidas, em ferir as convicções consagradas, e fazendo taboa rasa do criterium publico, pôr os recursos do seu talento ao serviço da sua impressão instantanea[3].»
Eis-aqui Lopes de Mendonça, segundo as suas mesmas palavras; eis aqui o artista. A sua vida foi uma serie de congestões, um incendiar-se lentamente nas labaredas que lhe requeimavam o coração e o cerebro. Tinha sonhado com a gloria, algumas vezes a entrevira, era festejado, era querido, tinha ganhado os primeiros lugares, tinha entrado nas primeiras salas, e elle, que tinha resistido á lucta, á insomnia, ao trabalho, sentiu-se desfallecer quando a lava da ultima congestão seccou, e para sempre, os louros da sua corôa.
Em toda a sua vida houve apenas um momento de tranquillo repouso,—foi o ultimo. Julio Machado, fallando da extrema dedicação da esposa de Lopes de Mendonça, escreve com a mimosa delicadesa que lhe é peculiar: «Um dia, ultimamente, elle sorriu-lhe. Os medicos disseram que ia salvar-se talvez. Ia salvar-se, ia. Ia morrer!»
Não havia já o crepitar das chammas, porque d'aquella volcanica combustão restavam apenas as cinzas d'um cerebro; o sopro da morte espalhou-as.
Acabou-se tudo.{24}
Alli agonisou nos braços da esposa carinhosa, esquecido da sociedade que mais d'uma vez o acclamára festivamente e que mais d'uma vez o apunhalára na couraça onde resvalaram todos os golpes dos detractores impotentes.
Julio Machado escreve ainda no seu ultimo e interessante livro—Da loucura e das manias em Portugal, fallando dos doudos de Rilhafolles:
«Lá esteve um, famoso e illustre, o mestre do folhetim em Portugal, e sua esposa alli foi todos os dias vêl-o e fazer-lhe companhia,—colhendo no céo a palma do combate terrestre e vendo sorrir-se para ella e abraçal-a meigamente aquelle ente querido, que havia representado um dos primeiros talentos d'esta terra, e que parecia, lucidamente, dizer-lhe com a vista que deve um dia ser feliz na eternidade a alma que n'esta vida teve dedicação pelo infortunio!»
Do homem que a fatalidade arrojou para os abysmos da loucura resta apenas um epitaphio;—pouco é, e transitorio. Mas de Lopes de Mendonça, do escriptor todo fogo e todo alma, todo colorido e sentimento, resta alguma cousa mais duradoura que o seu epitaphio,—os seus livros, nos quaes o physiologista poderá estudar largamente a vida impetupsa d'um temperamento nervoso-sanguineo.{25}
[2] Trechos de folhetim, pag. 128.