[3] Memorias de litteratura contemporanea, pag. 328-329.

III

J. C. Vieira de Castro

Se o leitor entrasse na sala do parlamento portuguez durante as mais animadas sessões da legislatura de 1865 a 1866 e ouvisse trovejar do alto da tribuna uma voz sonora, cheia, precipitando-se em inflexões caprichosas e febris, que para logo denunciavam certa irritabilidade fogosa e violenta, facilmente adivinharia, sem o descortinar, um orador de temperamento nervoso-sanguineo, em plena virilidade, ebrio da gloria, que, de triumpho em triumpho, o impellira até ás regiões do olympo parlamentar.

Na sessão do dia 13 de Janeiro de 1866, por exemplo, em que se discutia o projecto de lei sobre a liberdade de imprensa, apostrophava o orador a que nos referimos:{26}

«É licito perguntar com um notavel estylista da França: «Que temem os governos da imprensa livre?»

«A guerra da discussão? Mas ao contrario lhes deve lisongear o seu amor proprio, e a sua dedicação patriotica, porque lhes rasga vastos plainos ás victorias de suas doutrinas e de seus principios!

«Guerra de injuria? Pois soffram-n'a, que é para isso que são homens publicos. Se pelas eminencias do poder não houvesse senão estradas de flôres, de triumphos e de victorias, aonde estariam as provas da sua abnegação e do seu merito? E tanto lhes havia de doer a injuria que lhes arrancasse um grito contra a liberdade?

«Guerra de epigramma? Mas diz Pelletan, e diz bem, que os homens de estado devem ser fortes de coração e de cabeça, não ter a sensibilidade de nervos d'uma petite-maitresse, e fazer mesmo a epiderme robusta para as affrontas!

«Guerra de calumnia? Mas os governos teem ao seu lado a magistratura judicial e a magistratura popular para afogarem as calumnias nas gargantas dos calumniadores! Fiemo-nos da magistratura e da sua vigilancia. Ella é como a mulher de Cesar; está acima de toda a suspeita. E aproveito a primeira occasião do meu discurso em que posso render a esta classe a minha mais profunda homenagem de respeito e culto. Com a franqueza do meu caracter o digo, senhores; quando desalentadamente atiro com os olhos para tanto rebaixamento moral da minha patria, com orgulho vejo{27} e com orgulho contemplo as togas da nossa magistratura ainda impollutas com os seus sacrarios ao lado!»