Mezes antes, na sessão de 19 de novembro de 1865, o mesmo orador propunha uma mensagem de sentimento ao parlamento inglez pela morte de lord Palmerston, e discursava sobre a proposta:

«Verdadeiros heroes... e perdôe-me a memoria de José Estevão se eu penso que os ha, e perdôe-me ella ainda mais se é exactamente, comparando-os aos rochedos no oceano, que elles me parecem maiores e mais sublimes!

«Penso assim, e quando por muitas vezes hei meditado n'aquella celebrada imagem d'esse grande e inspirado orador, sempre me tem parecido que o mais digno de admiração n'aquelle atrevimento oratorio, é a modestia sublime de José Estevão. É que para mim no confronto dos heroes com os rochedos, não perdem aquelles por nenhuma sombra. Bem sei que se a irregularidade ás vezes monstruosa da sua estructura póde ser um defeito para a arte; é ella tambem, e sempre, o involucro esculptural das almas fadadas para as grandes tempestades, e dos corações baptisados desde o primeiro dia na onda dos grandes martyrios! Os rochedos, os heroes topetam com as nuvens que teem por cima; lambem-lhes os pés as vagas da opinião humilhada e abatida, e além cançada de se espedaçar contra elles; e estendem os seus braços, que não vergam nunca, aos naufragos cuspidos já quasi exanimes d'essas vagas, como se fossem elles os destinados pela{28} impassibilidade da sua força, pelo seu contacto com a luz immensa, e pela sua proximidade da praia, a retemperarem a tibieza dos fracos, a reaccenderem o entendimento dos desesperados, e a apontarem o porto de salvação e das novas esperanças aos que a resaca do primeiro commettimento ia prostrando e sorvendo no pégo!

«Tudo isto era tambem José Estevão, e porque se arreceasse aquella sublime modestia de que uma vez lh'o conhecessem, por isso elle dizia mal dos rochedos!

«E depois os rochedos não cahem nunca! E são tambem assim os heroes; nem cahem quando morrem!

«Os heroes morrem de pé!

«Morrem de pé!

«Foi assim que morreu lord Palmerston. E tanto foi assim que elle morreu, que expirando aos oitenta e um annos de idade, a Inglaterra correu desvairada ao seu jazigo, accusando aquella morte de prematura para o seu partido e para o seu paiz.»

Quando o sceptro da eloquencia tribunicia resvalou das mãos inertes de José Estevão, era opinião geral da gente portugueza que tarde, ou talvez nunca, uma nova palavra, de tal modo ardente e scintillante, despertaria os echos adormecidos da camara electiva.

Mais d'uma penna authorisada manifestou publicamente que a phalange gloriosa dos oradores parlamentares portuguezes tinha morrido na pessoa de José{29} Estevão. Tenho sobre a minha banca um livro de Ricardo Guimarães, Narrativas e episodios da vida politica e parlamentar, que fornece uma prova do que vimos dizendo.