Caminhando mais terra a terra, ser-nos-ha facil reconhecer que ha no homem, na lingua, na litteratura, na arte, e até na religião um reflexo da natureza que lhes foi berço,—reflexo que a ausencia do torrão natal e a identificação com um novo clima póde attenuar, no homem, consideravelmente. O que é certo, e tem sido muitas rezes notado, é que, por exemplo, as linguas do Norte se distinguem pela rudeza das articulações das linguas do Meio-dia incomparavelmente melodiosas; que as litteraturas septentrionaes teem uma riqueza de pensamento que se póde contrapôr á riqueza de sensibilidade das linguas meridionaes; que a musica do Norte é magestosa, grave, solemne, ao passo que a musica do Meio-dia é caracterisada{39} pela variedade das inflexões, pela harmonia, e pelo sentimentalismo.
Cumpre notar,—aproveitando uma observação de Deschanel,—que umas vezes e pela similhança e outras pelo contraste que o clima se reproduz na litteratura. «Ideal de belleza,—diz elle,—ideal de fealdade, que importa! Na religião dos negros, o diabo, dizem, é branco. E isto, pela mesma razão que na religião dos brancos—dos brancos que acreditam no diabo—o diabo é preto. Porque é que os poetas latinos, quando querem pintar a graça e a belleza das mulheres, lhes dão mais vezes cabellos louros do que cabellos pretos? É porque entre elles, em Italia, quasi todas as mulheres teem cabellos negros.—Reciprocamente, quando os poetas celebram a miudo as bellezas morenas, logo se adivinha que são do Norte, clima das bellezas louras.»
Isto é realmente verdade. Diz o proloquio: «Só se deseja o que só se não tem.»
Já deixamos dito que Emilio Deschanel não leva a influencia do clima até ao fatalismo geographico. A sua Physiologia não é uma theoria absoluta, uma demonstração didactica, como elle mesmo diz, mas simplesmente uma causerie sobre a litteratura e sobre a arte. Nós, que procuramos seguir o caminho de Deschanel, não podemos acreditar que seja a terra a prophecia da historia, mas firmemente cremos que todo o homem tem muito do seu paiz como a flôr tem muito do sitio onde desabrochou. E depois o homem,—como{40} notou Lamartine—é planta até certa idade, e a alma tem as raizes no solo, no ar e no céo que lhe formaram os sentidos. D'aqui a absorpção dos fluidos que andavam espalhados no ambiente da patria.
Não será difficil estudar-se na nossa litteratura o temperamento predominante dos portuguezes. Dous livros nos caracterisam perfeitamente,—Os Lusiadas e a Menina e moça. Fomos sempre o povo das saudades e da vida concentrada do mar, que o mesmo é dizer tambem da saudade.
Longe, por esse azul dos vastos mares,
Na soidão melancolica das aguas
Ouvi gemer a lamentosa Alcyone,
E com ella gemeu minha saudade.
Muita da nossa melhor litteratura são chronicas de viagem e poemas d'amor. Nós, a nação que formamos a monarchia á sombra da cruz, herdamos, no vasto espolio que recebemos de Roma, a lyra melancolica de Virgilio, que foi o poeta mais christão do paganismo e de quem disse Victor Hugo
Il chantait presque á l'heure ou Jèsus vagissait.
Depois a mesma indole da lingua, cujos numeros são d'uma saudosa melancolia, como notou Garrett,{41} as perturbações subitas da atmosphera, o aspecto suavemente triste da natureza, a solidão do navio, do bivaque e do claustro, deram-nos este caracter sombrio que nos distingue, predispozeram-nos para o temperamento nervoso-melancolico que é o predominante.
O nosso clima favorece as molestias intestinaes—d'aqui o mau humor, a hypocondria, o azedume, a satyra, que está perfeitamente representada em Bocage.