Diremos tambem, e de passagem, até onde o estylo é o seculo.
A França do seculo XVIII está claramente representada nos romances licenciosos de Duclos e de Crebillon, filho, como nos quadros eroticos de Fragonard e Boucher.
Em Portugal os poetas e os historiadores do seculo XVI eloquentemente revelam a época de maior esplendor que jámais atravessou a patria, assim como os annaes da Accademia real de historia bastam para pregoar, em suas declamações fatuas e vans, a decadencia da litteratura portugueza que veio depois a receber alento do grande espirito do marquez da Pombal.
«Chaque siècle a son tour d'esprit», disse Fontenelle, e a historia nos está provando que Fontenelle não mentiu.
Emilio Deschanel ponderou que «se o estylo era o homem, a litteratura era a sociedade.»
Outra verdade profunda, outra illação da historia, que não só se deprehende da litteratura propriamente dita, senão que tambem se está revelando n'essa outra litteratura de pedra chamada architectura.
Para o nosso caso, os monumentos são tão eloquentes como os livros.
Já Victor Hugo notou, no romance Notre Dame, que o Paris de Luiz XV estava em Saint-Sulpice, o Paris de Luiz XVI no Pantheon, e o Paris da republica na Escola de Medicina.
Em Portugal, tambem o snr. Alexandre Herculano{53} observou que a Batalha era um poema de pedra e Mafra uma semsaboria de marmore,—que uma era grave como o vulto homerico de D. João I e que a outra representava uma geração effeminada que se fingia gente.
Todavia promettemos logo ao principio ir apontando as excepções que fossem occorrendo, e ao proverbio de que o escriptor encarna o seculo em que viveu,—não nos esqueceremos de contrapôr que as fabulas de Florian são de 1792 e que em 93 Légouvé dava no Theatro-francez uma tragedia pastoril. Offenbach é um exemplo do nosso tempo; depois da guerra com o estrangeiro, depois dos dias sangrentos da communa, recomeça tranquillamente as suas operetas.