A fatalidade tinha-o atirado para um sepulchro, é certo, mas o sepulchro d'um poeta tem sempre flôres.

Era recendente a urna espessa em que lhe ficava cerrada a infancia. Mas pelas estrophes perfumadas do passado recompoz Castilho os poemas inebriantes do futuro; pelos aromas da infancia adivinhou a primavera invisivel da mocidade.

Pouco era o que tinha aprendido, mas de muito lhe serviu para o que viria saber. Onde lhe faltava a visão, porque as palpebras tinha-as para sempre fechadas, ahi lhe acudiam os olhos de seus irmãos, que viam por elle, ahi o soccorria a lição dos poetas bucolicos com que foi creado, ahi lhe entrava a flux pela alma e pelos ouvidos o dulcissimo conhecimento da natureza que idolatrava. Assim se fez e educou poeta ao murmurio placido do Mondego e do Tibre, de que não estava menos proximo. O rouxinol, privado de vista, tambem canta, como sinta os perfumes da primavera e a melopêa da corrente suspirosa. De musicas e aromas se formou a sua alma, por isso não ha ahi melhor poeta do amor, da melancolia, das flôres, das aves e das creanças.{56}

O livro Primavera caracterisa-o perfeitamente; estão n'elle todas as branduras lymphaticas do seu teraperamento, todas as doçuras ineffaveis da sua alma. Uma vez só, como já dissemos em outro lugar, cahiram as boninas da sua lyra campestre sacudidas pela rajada violenta das paixões. Os Ciumes do bardo e a Noite do castello representavam um esforço ao qual se devia seguir, como a claridade da manhã após a negrura da tormenta, todos os idyllios suavemente elegiacos que dedilhou depois. Ha d'estas contradicções na vida dos escriptores, e nós, que voluntariamente nos obrigamos a apontar as excepções, não podemos deixar em silencio a seguinte, que é flagrante.

Gomes Goelho, já gravemente doente, escrevia, n'uma hora de dolorosos soffrimentos, uns versos scintillantes de verve peninsular, que desmentem completamente o genero caracteristico do finado escriptor.

A poesia de que venho fallando destina-se á Grinalda e, por obsequio de Nogueira Lima, transcrevo as tres primeiras quadras:

Ai, quem me dera em Sevilha,
Onde a travessa hespanhola
Sob a elegante mantilha
As negras tranças enrola.

Na arcada da sé formosa
Vêl-a entrar, tal como a sonho;{57}
Entre coquette e piedosa,
Rosto, entre grave e risonho.

Mergulhar na agua benzida
A mão pequena e elegante
E entre a turba, alli reunida,
Distinguir o olhar do amante.


A vida de Castilho tem sido o caminhar empós idéas generosas, principios nobres e santos, quaesquer que sejam, com o peito cheio de serenidade, ou o recebam hymnos ou chufas, ou o acclamem «Poeta» ou lhe gritem «Utopista». Não ha presentemente em Portugal homem que mais tenha sido aggredido e que mais razões tenha para ser respeitado. As vagas que se levantam no esforço de quererem submergir a sua corôa litteraria, batem d'encontro ao throno em que a patria já collocou, e para sempre, o cantor da Primavera, e refervem, e espumam e, finalmente, desfazem-se.

Elle, a cujos ouvidos resoam incessantemente as musicas da alma, não ouve siquer o acachoar das aguas impuras que não chegam a macular-lhe as plantas. Está embevecido na sua poesia, no seu sonhar perpetuo, nas suas dôces affeições.