Um dia, desceu do solio litterario e entrou á escóla, levando comsigo a alegria, a musica, o amor{58} pelo estudo. Cercaram-no umas creanças pallidas e concentradas, que lhe faziam dó, e essas creanças, volvidos dias, amavam-se entre si, estimavam o mestre, já não riscavam os seus livros, e do intimo de suas almas immaculadas abençoavam o poeta cego e velho que lhes enchera de poesia o recesso humido e soturno da escóla. Mas levantaram-se as vagas, e referveram, e espumaram. Castilho recolheu-se ao ninho querido onde o estavam convidando as amenidades de todos os dias. As multidões gritavam «Utopista» e as vozes esmoreciam no ar. Não lhe deixaram fazer da escóla-cemiterio, cheia de escuridade e tristeza, a escóla-floresta gorgeada, alegre e festiva. Conseguiram que elle depozesse o livro da primeira communhão espiritual, mas não lhe poderam arrancar do peito o amor que elle ainda conserva á escóla, ás creanças e á legião dos seus poetas romanos com os quaes se entende muito melhor que com os impertinentes conservadores do velho ensino. Arrancaram-lhe das mãos o cathecismo preceptor, é certo, mas não lhe poderam empolgar a lyra das branduras predilectas. E recomeçou a cantar os seus idyllios, a suspirar as suas dôces elegias, pedindo aos seus amigos que o deixassem morrer com as mãos postas sobre as cabeças de seus filhos e com a lyra encostada ao coração.

Não quer outra indemnisação em quanto fôr do mundo; depois que a morte arrefecer a escuridão dos seus olhos, pouco é, e de poeta, o que elle deseja para si:{59}

«Depois que entre os abraços delirantes
De todos os que amei, findar meus dias,
Sepultai-me n'um valle ignoto e fertil.
Para marcar da sepultura o sitio,
Sobre o cadaver, que vos foi tão caro,
Mangeronas plantai, cuja verdura
Em roda fechem variados lirios.
Na raiz funda de soberba olaia
Pouse a minha cabeça, e o tronco amigo
Sobre mim curve a copa florecente.
Mil piteiras unidas, ostentando
Na hastea vaidosa as flôres amarellas,
Em quadrado não grande me defendam
Das incursões das cabras roedoras.
Em meu tronco se escreva este epitaphio:

Foi poeta amador da natureza:
D'entre as sombras ancioso a procurava,
Qual terno amante a bella fugitiva.

Sobre isto pendurai sonora flauta,
Que se revolva á discrição do vento.
Não cerque os ossos meus, não mos ensombre
Nem teixo nem cypreste; arvores quatro
Quizera só no meu jardim de morte.
N'um canto a laranjeira graciosa,
Que mescla util e dôce, a flôr e o fructo:
N'outro a figueira sob as amplas folhas
Modesta occulte seus nectareos mimos:{60}
Defronte um pecegueiro em fructos mostre
Que amavel é pudor, quando enche faces
De pennugem subtil inda cobertas:
No ultimo canto... (a escolha me confunde)
Plantai no ultimo canto uma ginjeira,
É a arvore da infancia até na altura;
D'esta por sua mão colhe um menino
A mui ridente baga, e ri de ufano.
Alguns tempos depois que a fria terra
Meus restos encerrar, á minha olaia
Vós, meus amigos, vós dareis meu nome,
Pois de mim se nutriu, e eu serei n'ella.»

Envelhece o homem mas sobrevive o poeta. O seu temperamento tem prevalecido o mesmo e já se tornaram em sazonados pomos de abundante outomno as flôres odorosas da septuagesima primavera. A sua alma conserva-se tranquilla, cheia de luz como o céo da Grecia, sob o qual poetou o seu Anacreonte, perfumada como os pomares tiburtinos do seu Horacio.

O temperamento de Lopes de Mendonça era prophecia da fatalidade a que devia succumbir; o temperamento de Castilho assegura-lhe viver poeta e morrer, como o cysne da tradição fabulosa, ainda poeta.{61}

VI

Julio Cesar Machado

A photographia é o folhetim da optica, assim, como o folhetim é a photographia da litteratura. Depois que se accendeu a febre dos jornaes, introduziu-se a moda já agora generalisada dos albuns, e a photographia e o folhetim invadiram o mundo, correram de mãos dadas, de polo a polo, porque se o folhetim é a reproducção dos acontecimentos, começada e concluida n'um instante, a photographia é a copia ligeira das pessoas, consummada em cinco minutos, n'um atelier elegante. Quem tem pretenções a fazer-se conhecido e respeitado das immensas ramificações de seus descendentes, retrata-se a oleo e deixa-se exhibir na sala nobre da familia, pendente d'uma lona, de casaca ou de farda, como se estivesse em perpetuo baile.{62}

Quem deseja escrever um livro para a posteridade segue o moroso processo dos retratos a oleo, senta-se pacientemente á banca todos os dias, corrige, emenda, annota, do mesmo modo que o pintor se inclina para a tela, aperfeiçoando um traço, avivando o colorido, corrigindo o contorno, trabalhando para o futuro, n'uma palavra. Mas quem se vai retratar para satisfazer um pedido, para brindar um amigo, para estar presente a uns olhos queridos com a firme tenção de mais tarde substituir o cartão pela propria pessoa, contenta-se com a photographia, que é um retrato incompleto, mas que é todavia um retrato.

Do mesmo modo, quem se senta á mesa de trabalho para traçar um esboço dos acontecimentos, para consignar as impressões do espectaculo d'hontem em quanto se faz horas para o baile d'hoje, e se pensa no passeio d'ámanhã, quem não quer historiar os factos mas unicamente estenographal-os, deixa fluctuar a penna na corrente do folhetim, dando um sorriso á bailarina nova, atirando um punhado de flôres ás alegrias do povo, orvalhando de lagrimas a saudade d'um athleta que cahiu, e sahe depois, de casaca e luva côr de perola, quando chega a carruagem, sem pensar siquer em que, procedendo d'outro modo, poderia ir ao capitolio mais depressa do que á sala esplendida e perfumada que o espera.