A missão do folhetim é pois photographar, apanhar os acontecimentos d'um só jacto e coloril-os com a luz que resalta do foco interior. Camillo Castello-Branco{63} escrevia uma vez a respeito de Julio Cesar Machado: «Bem sabe elle como é rapido o photographar, e bem sabemos nós que não devemos pedir-lhe mais que o esboço das cousas, aperfeiçoado depois pelo sexto sentido do talento.»
Em Portugal, o folhetim começou grosseiramente no «Almocreve das petas» e no «Barco da carreira dos tolos» como notou Rebello da Silva. José Daniel, que comprehendeu o espirito proeminente da época, procurou fazer a critica dos acontecimentos e das pessoas do seu tempo, provocando o riso, com a graça saloia e com a chufa grosseira, que era muita vez um respiraculo intencionalmente aberto ás combustões da inveja e do odio.
Era o embryão do folhetim, preparado á portugueza velha e pautado pelos modêlos da Eufrosina de Sá de Miranda e do Fidalgo aprendiz de Francisco Manoel de Mello. O verdadeiro folhetim, tal como nós hoje o conhecemos, «a critica ligeira, risonha e fugitiva que borboleteia ao de leve por cima das flôres» como disse tambem Rebello da Silva, veio de França junto com os primeiros albuns que de lá recebemos, ao tempo que Julio Janin era moço, e de Hespanha dentro de uma caixa de charutos, expedidos pelo dono do estanco onde Marianno Larra os costumava comprar.
Garrett, que estudou lá fóra as mais notaveis evoluções da litteratura moderna, foi o primeiro que trouxe para Portugal o folhetim francez, amaneirado, elegante, chic. O mesmo não aconteceu ao snr. Alexandre{64} Herculano, que estudou tambem na escóla do estrangeiro durante o tempo da emigração, mas cujo temperamento era adverso ás amenidades da litteratura ligeira. Á hora em que o snr. Herculano trabalhava na mente o plano das suas lucubrações historicas, descia o futuro visconde d'Almeida Garrett do seu cubiculo de Ingouville, onde escrevera o Camões, e flanava distrahidamente pelas margens do Sena.
Era isto—Garrett, o flaneur; Herculano, o philosopho.
Garrett foi na litteratura, como na sociedade, o verdadeiro flaneur. Borboleteou de genero em genero, dramatisou, romanceou, poetou, folhetinisou n'uma palavra, mas folhetinisou soberba, esplendida, admiravelmente. Garrett era porém o folhetinista do livro; faltava em Portugal o folhetinista do periodico. O temperamento de Garrett vedava-lhe o acompanhar quasi diariamente as lucubrações jornalisticas. Gostava de folhetinisar no seu gabinete, entre flôres e crystaes. Estava-se pedindo um homem robusto, febril, enthusiasta, que escrevesse os seus folhetins sobre a banca d'um escriptorio, nú de moveis e ornatos, com infatigavel energia, em quanto esperava o prélo impaciente. Esse homem appareceu,—foi Lopes de Mendonça. Durante muitos annos exerceu elle brilhantemente o folhetim,—o folhetim que se compromette a apparecer todas as semanas, a fallar de tudo embora haja completa escacez de assumptos, a ser alegre, espirituoso e profundo, apesar de se dar ares de leviano. O incendio{65} d'aquella poderosa imaginação crepitou, deslumbrou e finalmente extinguiu-se. Então appareceu em Lisboa um rapazinho da provincia, cheio de mocidade e esperança, que se estreou na litteratura offerecendo-se para traductor do Gymnasio. Os horisontes que elle sonhava eram lucidos como o céo da primavera. Em redor de Julio Cesar Machado tudo eram sombras, difficuldades, obstaculos. Mas elle era feliz porque sonhava com a esperança. Não basta ser feliz para o ser verdadeiramente. É preciso, e n'isto está tudo, amar a felicidade.
Se elle quizesse vencer d'um impeto todos os estorvos, enlouqueceria. Mas o seu temperamento lymphatico permittia-lhe esperar, e saber esperar é inquestionavelmente a primeira condição para vencer. Os seus nervos eram de natural submissos; impaciencia não a teve nunca. Por isso foi feliz. Soube namorar a felicidade. Quando a critica invejosa e proterva lhe sahia ao caminho, lá lhe vinha uma sombra á alma, mas as tristezas d'estes temperamentos são dolorosamente suaves. Passava a nuvem;—sonhava de novo com a esperança.
Eu sou realmente amigo de Julio Machado, e sei que elle me estima deveras. Quando penso na vida d'elle, lembro-me de mim, e perdôem-me este orgulho.
O author dos Contos ao luar entrou no mundo sósinho; seu pai deixou-o muito novo quando desceu ao tumulo. Eu fui um pouco mais feliz, mas o braço de meu pai, cansado de trabalhar toda a vida, só com extrema difficuldade poderia nortear a minha educação pelos mares que a sua alma affectiva me queria aplanar. Os mestres de Julio Machado foram os seus primeiros amigos. Eu tambem me quero lisongear d'essa honra. Foi a amizade de José Estevão que lhe franqueou as columnas da Revolução de Setembro. Eu encontrei tambem no principio da minha carreira um jornalista sobremodo honrado, o snr. Cruz Coutinho, que recebeu os meus primeiros ensaios nas columnas do Jornal do Porto, e me animou a proseguir. Ambos ganhamos pela penna o primeiro pão da vida. Do meu passado, conservo saudosas lembranças; Julio Machado compraz-se tambem em rememorar os seus primeiros annos que lhe sorriem ainda gratos através da penumbra do passado. Ambos nos destinavamos a um curso superior, e ambos ficamos no mundo sem carta de bachareis. Foi realmente uma pena; eu se fosse doutor era com certeza mais gordo,—mais feliz, pelo menos.
Qual seria a barreira litteraria diante da qual empedrou o estudantinho da Durruivos? Não sei; o latim de certo não foi, que esse ensinou-lh'o o padre Paulo, de quem elle falla nos Quadros do campo e da cidade.