Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz digladiar com luctador assim digno como leal.{84}

Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas. E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica, antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O rei Jorge III, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento, visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso deserto das alturas. D'esses não fallava{85} eu, porque os respeito tanto, quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento. Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;—a Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas, objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon, finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.

Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi penitenciar-me publicamente{86} do meu desamor aos numeros e, como eu sou d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita a esta disposição, é publico.

Os estudantinhos que o meu amigo conheceu com o espirito derrancado pela leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos, infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.

Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me{87} então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.

Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só sahem incolumes do exame de geometria,—quando sahem—depois de longo soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu espirito d'elles.

Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;—é Gonçalves Crespo, o author das Miniaturas.