Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um estado.
Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.
Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião que geralmente se fórma da sua intelligencia.{88}
Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a despeito das mathematicas,—foi o estylo que naturalmente resalta da sua penna com estimavel donaire.
Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito, alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.
Voltemos porém aos mathematicos.
Em duas classes os divido eu; mathematicos-artistas e mathematicos-operarios.
Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.
Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.
Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira d'essa hypothese.