São maneiras de vêr.

Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu{89} os distingo, pertencem os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir com o seu talento.

Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos inchados que elles,—os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes commettem. Mais nada.

«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»{90}

Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle no Genio do Christianismo:

«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença d'opiniões vem do erro commum, que confunde um grande com um habil mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde entrar por ella dentro com galhardia.

«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de litteratura, de moral, de religião; conhecem, dizem elles, a natureza. Não{91} será para adorar-se a ignorancia de Platão, que chama á natureza uma poesia mysteriosa

Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas Alvoradas. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livro Manual do apontador.

Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.

Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.