«Se se póde, em verdade,—escreve Deschanel—observar alguma cousa d'involuntario nos momentos sagrados da inspiração, esses momentos fugitivos não são tudo: subsiste toda a potencia innata e toda a força adquirida, toda a somma de experiencia humana,{9} de alegrias e dôres, que os precedem: toda a energia de escolha e de vontade que os segue,—se é que não os acompanha—: porque o que ha de involuntario é apenas apparente; e mesmo no enthusiasmo o genio não perde a sua bussola.»

Ainda algumas palavras do doutor Moreau para ouvirmos depois Emilio Deschanel:

«Todas as vezes que as faculdades intellectuaes ultrapassem a bitola ordinaria, especialmente nos casos em que ellas attinjam um grau de energia excepcional, podemos estar certos de que o estado nervopathico, sob uma fórma qualquer, influenciou o orgão do pensamento, quer idiopathicamente, quer por via da hereditariedade. O que é o mesmo que dizer que nos homens excepcionaes se reconhecem as mesmas condições d'origem ou de temperamento que nos alienados ou nos idiotas.»

Modifica Emilio Deschanel:

«O que é verdade, é que um pequeno numero de pessoas, maiores de trinta e cinco annos, goza um estado de saude completa; quasi todas soffrem mais ou menos, quer notoria quer secretamente, com mais razão, os homens de letras e os artistas, cujo estado nervoso hereditario e innato está sobreexcitado incessantemente. A concentração habitual em que vivem, a fermentação quasi contínua do cerebro, inflamma-os, gasta-os, mina-os. Brilham ardendo. São, a certos respeitos, meio doentes; isso é incontestavel. Parece que o pensamento lhes aproveita tudo quanto roubam ao{10} corpo. Ao passo que um se estiola, o outro se robustece; arruinam-se physicamente á medida que se constroem moralmente.—Mas se soubessem conservar o equilibrio entre o espirito e o corpo, iriam peor as cousas, e o seu talento d'elles perderia? Não, de certo! Pelo contrario, só tinha a ganhar.»

Estas ultimas palavras d'Emilio Deschanel parece deixarem brecha aberta á contestação, se acreditarmos que elle se propõe refutar completamente a these do doutor Moreau. Não. Deschanel protesta contra a exageração do doutor de Tours, mas aceita o estado-mixto, quer dizer, um estado que ao mesmo tempo participa da saude e da doença.

Emilio Deschanel compartilha pois da opinião d'outro medico francez, o doutor Bouchut, segundo o qual o nervosismo é a molestia ordinaria dos homens de letras e dos artistas.

A antiguidade chamava-lhe genus imbecille, genus irritabile vatum. A sciencia moderna foi mais longe, muito mais longe:—adoptou uma palavra, e eis tudo,—O nervoso.

Nervosismo, estado-mixto, seja como fôr, tenha a denominação que tiver, o que é certo é que parece ser apanagio das pessoas cujo exercicio intellectual está em flagrante desproporção com a despeza d'actividade physica.

Os homens de letras estão por via de regra costumados á reclusão do estudo e á vida sedentaria do gabinete. N'essas longas horas do continuado labutar,{11} toda a vida se concentra no cerebro, para assim dizer;—d'aqui a excitação nervosa, um excesso d'actividade intellectual que não é equilibrado pelo exercicio muscular, pelo desenvolvimento do corpo.