A falta de saude, a debilidade, o estado-mixto afigura-se-nos uma consequencia inevitavel. Toda a vida organica tem por base a renovação incessante da materia. A natureza quer expulsar de si o que é velho e morbido. A moderada actividade das fibras musculares tende pois a favorecer a transformação da materia, a regeneração da massa do sangue, e a dar um impulso benefico ao acto vital.
Os homens de letras descuram porém as conveniencias do organismo. Para elles a vida intellectual é tudo e,—dissipadores inconscientes!—vão-se atirando para o tumulo com uma pressa que o seu estado de continua excitabilidade lhes não permitte domar.
Abundam n'estas desafinações do systema nervoso os caprichos, as velleidades, os habitos exquisitos e bizarros, as idiosyncrasias.
Michelet, por exemplo, trabalha de manhã, tomando café em larga cópia. Balzac escrevia de noite e, como Michelet, ia esvasiando chavenas sem conto d'um café negro, carregado, nauseabundo. Bossuet escrevia n'um quarto frio com a cabeça coberta; de Schiller conta-se que mettia os pés em gelo para ter uma inspiração feliz.
Mozart, a sensitiva da musica, organisação extremamente nervosa, era victima de profunda melancolia.{12} Procurava vencel-a com o trabalho, com o trabalho louco e desregrado, a ponto de se levantar do piano para cahir no leito, exhausto de forças.
Paulo Janet, refutando n'um capitulo do seu livro Le cerveau et la pensée a theoria do doutor Moreau, procura demonstrar que estas excentricidades não são provenientes da loucura sublime do genio. Quer-nos parecer porém que tanto exorbita Paulo Janet como o celebre medico de Tours. Os extremos são por via de regra viciosos, e, n'esta questão especialmente, afigura-se-nos que o meio termo é sobremodo aceitavel. Por tal razão propendemos para as modificações sensatas de Emilio Deschanel. Não se estabelece uma lei fatal, não nos referimos á totalidade absoluta; falla-se do maior numero, o que é incontestavel, como demonstra a longa experiencia dos factos. Cumpre notar que não fazemos propaganda scientifica, senão que estamos lançando ao papel uns estudos humoristicos para correrem em folhetim.
Prosigamos finalmente, deixando para academias e academicos esta grande questão do genio e da loucura. O nosso proposito é outro;—vejamos.
Emilio Deschanel, não menos espirituoso humorista que o doutor Moreau, procura demonstrar que o estylo revela o temperamento do escriptor.
É verdadeiramente a physiologia applicada á critica.
Através da eloquencia fogosa de Bossuet descobre Emilio Deschanel um temperamento nervoso-sanguineo. Pascal era nervoso-bilioso; é o seu estylo que nol-o diz.{13}