É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia d'homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.
Ora os espiritos privilegiados, que chegaram a ser grandes mathematicos, nasceram predestinados para as conquistas do pensamento, não ha difficuldade que os sustenha, barreira que os inquiete; são como os Alexandre Magno e os Napoleão que não recuam diante{112} da metralha inimiga e vôam no corcel impaciente até que a morte lhes arrefeça o sangue nas vêas. Da theoria dos mathematicos-artistas e dos mathematicos-executantes deduz o meu amigo o seguinte argumento:
«Ha mathematicos seccos de espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico, logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras do numero e do caloulo.»
Esta maneira de deduzir é que a mim me quer parecer extremamente sophistica. Então o meu amigo acha que se póde sujeitar a influencias materiaes, puramente externas, a intelligencia humana? Ou quer então medil-a pela mesma bitola em todos os homens? Se apenas houvesse um só grau de desenvolvimento intellectual, não teriam hoje menção especial os Newton, os Galileu e os Laplace.
O conhecidissimo Fetis, o maior sabio da musica moderna, venceu pela sua rara intuição todas as difficuldades e devassou os mais reconditos segredos da arte dando ao mundo o Tractado da harmonia[6] um verdadeiro{113} monumento que não poderia ser escripto por qualquer executante secundario da orchestra de S. João.
E porque não poderia? Segundo as suas conclusões, porque a musica os «fez mirrhados e massadores.» Victor Hugo escreveu uma ode magnifica aos quinze annos; logo, ainda segundo as suas conclusões, foi porque resistiu ás influencias esterilisadoras da poetica. Não sophisme, meu amigo; bem sabe que ha aptidões excepcionaes e especiaes, que os Newton e os Victor Hugo são grandes porque não são vulgares.
Agora ha certa affinidade em determinadas sciencias, que o mesmo é ter aptidão natural para umas e para outras, porque em verdade as podemos considerar irmãs gemeas.
Acontece isto, como sabe, com a mathematica e com a physica, com a geographia e com a historia. Todavia esta affinidade não se dá a meu vêr entre a{114} mathematica e a poesia, porque, com quanto mirem ambas á verdade, visto que ambas teem por fim o bello, uma caminha a elle pela sensibilidade, pela imaginação, e a outra pela intelligencia, pela razão. É preciso ser descommunalmente grande, excepcionalmente organisado, para as abranger a ambas: Diz o meu amigo na sua ultima carta:
«Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.»
E na primeira dizia que dessem á França mais arithmetica e menos versos, e que Sedan seria impossivel. Aqui ha contradicção. Então foram os versos que mataram o calculo,—foram as demasias do coração que allucinaram a cabeça. Portanto uma cousa e outra são incompativeis.