Tambem na sua primeira carta dizia o meu amigo que devêra a sua reprovação em mathematica ás influencias nocivas da poesia, e que só combatendo pertinazmente essas influencias conseguira familiarisar-se com os numeros. Isto corrobora ainda o meu argumento.

A mathematica dilata a razão, como a poesia dilata o coração. Uma vai após a razão, a outra após a sensibilidade, e tanto isto é verdade, que os grandes{115} litteratos são achacados ás irritações nervosas, ao genus irritabile vatum, como diziam os antigos. O melhor poeta será o que sentir melhor; o maior mathematico será o que calcular melhor. Portanto, é indispensavel uma organisação especialissima para ser tamanho n'uma como na outra. Lopes de Mendonça que tentou passar das amenidades da litteratura para o estudo pesado da economia politica, da administração, de tudo o que era adverso á sua inclinação natural, acabou por se perder para tudo, agonisando longo tempo no carcere da loucura.

A nossa conversa fica n'isto: Não nego que a mathematica forneça processos seguros para a percepção da verdade, nem o meu amigo affirma que só pela mathematica se chegue á verdade, o que é o mesmo que dizer que sem se ser forte em mathematica, se póde ser grande em qualquer outra cousa,—em litteratura por exemplo. Faço entre os mathematicos, como entre todas as sciencias e artes, a distincção natural que offerecem as intelligencias. Opino que a heterogeneidade dos meios de que se servem a mathematica e a poesia produz entre ellas um certo antagonismo natural de modalidade, como se dá por exemplo entre as aves e os peixes cujo fim commum é a vida, com quanto umas vivam no ar e outros na agua; e o meu amigo corrobora esta opinião mostrando que a poesia no seu proprio espirito só cedeu campo á mathematica, depois que a expulsou a ella, a poesia, e que a França não attingiu o fim que devia attingir, porque empregou{116} o meio-poesia, em vez de empregar o meio-mathematica.

Vamos agora á que o meu amigo chama magna questão da educação da mulher, e antes de mais nada permitta-me que rebata a sua phrase «responder com a aria da Traviata ao X de uma equação algebrica.» Isto ou é gracioso ou serio. Se é gracioso, é improprio d'uma questão de doutrina, e se é serio, colloca-se o meu amigo na posição de não poder continuar uma discussão com um contendor que larga a cantar á desgarrada quando o meu amigo lhe está expondo argumentos, e corre além d'isso o risco de se contradizer porque não se concebe como o Conceição, acreditando que eu estudo, suppõe que eu possa cantarolar quando o meu amigo raciocina.

Eu chamo impiedade, no nosso caso, ao desprezo pela religião e portanto á incredulidade religiosa. Ora o seculo XVIII instruiu de mais a mulher, roubou-lhe a meu vêr a timidez que lhe é natural, e portanto a candura que a caracterisa. Roselli de Lorgues trata bem esta questão no Jesus Christo perante o seculo. Na minha opinião a mulher deve ter a instrucção da preceptora, não a erudição de uma academia. Já vê que não quero a mulher ignorante mas que tambem a não quero sabia.

O Legouvé, cuja leitura me recommenda, já era meu conhecido,—estava na minha estante.

Acho a Histoire morale des femmes um bonito livro, mas não um livro irrespondivel, irrefutavel.{117}

Vejamos o capitulo Educação que friza ao nosso caso, e permitta-me que lhe riposte o golpe com as suas mesmas armas.

Cita Legouvé o caso d'um rapaz e d'uma rapariga que estavam aprendendo astronomia. Elle immovel, concentrado, meditativo. Ella exaltada, enthusiasmada, em extasi. Isto que prova? Que ella sentia mais, o que não é o mesmo que comprehender melhor.

N'outro relanço diz Legouvé: «Ser esposa e mãi é simplesmente dirigir um jantar, governar os criados, velar pelo bem-estar material e pela saude de todos, que sei eu, é simplesmente amar, orar, consolar? Não! É tudo isso; mas é mais ainda; é guiar e educar, por consequencia é saber.» Ora guiar e educar é saber, mas saber astronomia não é guiar e educar. Dando-se tão lata instrucção á mulher, occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes,—o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.