Tinha muito que lhe dizer, mas nós tratamos tantos pontos ao mesmo tempo, que é impossivel continuarmos assim.

Resta-me dizer-lhe como eu explico o desamor da sociedade pela poesia.

A Europa está n'uma verdadeira época de transição. Tudo é fluctuante, incerto. Não tarda, segundo penso, uma evolução geral, que se presente através{118} dos acontecimentos presentes. A sociedade está em ebullição e por conseguinte falta de instrucção; a litteratura resente-se d'este estado geral, e por isso produz pouco e mal.

Ha seculo e meio que estamos a traduzir, disse-o Garrett. Temos perdido os nossos grandes homens, uns porque morreram, outros porque se retiraram da arena, e nem a sociedade lê, porque não entende, nem a poesia canta, porque não tem voz.

O que se dá entre nós esta-se dando actualmente em França onde o theatro vai na extrema decadencia como em Portugal, e onde os ultimos livros são apenas inspirados pelos ultimos acontecimentos da sociedade franceza. Sedan parece-me que não é um facto sem proximas consequencias europêas. A litteratura e a politica estão n'uma indolencia esterilisadora, e isto assim não póde continuar.

A respeito de Portugal, escrevia Lopes de Mendonça: «A nossa decadencia litteraria retrata-se com a mais severa exactidão nos factos da nossa historia politica.» O mesmo é em todos os outros paizes.

Estas evoluções são fataes em todos os povos. Os grandes e os pequenos corpos não podem subsistir sem a renovação incessante da materia. As nações são corpos collectivos, e estão sujeitas a esta lei de renovação perpetua. A poesia está defecada porque respira no meio d'uma sociedade igualmente defecada;—d'aqui o queixarem-se uma da outra. Isto é o que me parece.{119}

Deixe-me,—e já me ia esquecendo,—levantar uma phrase sua a respeito de Chateaubriand, o qual «se esqueceu de metrificar o Genio do Christianismo, unica qualidade que falta ao livro para poder ser recitado ao piano.»

Eu não esperava isto de si, meu caro Conceição. O Genio do Christianismo afigura-se-me um livro pensado, formoso e concludente.

Guizot escreveu algures palavras de respeito ao author e ao livro; Lopes de Mendonça tambem, e Garrett escreveu simplesmente no Tractado da educação: «Mr. de Chateaubriand diz em sua obra immortal do Genie du Christianisme, etc.»