Crivei este periodo umas poucas de vezes e, á parte o joio dos meus defeitos grammaticaes—com que já me não afflijo porque estou calejado no peccado—não achei cousa que se parecesse com uma contradicção.
Eu accuso os francezes de futeis; accuso-os de tratarem as questões mais serias com a leviandade que lhes é propria, de fazerem romances quando se trata de escrever historia, de recitarem versos quando se trata de discutir sciencia, de sonharem theorias de governação platonica quando se trata de assentar principios de democracia pratica, de orarem ás turbas em estylo academico e repolhudo quando se trata de pegar em armas e defender a patria.
Foi isto o que eu quiz dizer e que o meu amigo não podia deixar de entender assim.
Que contradicção ha entre isto e a minha these de que o estudo das mathematicas não póde ser prejudicial á aptidão poetica?{125}
Póde acaso entender-se que eu quiz apresentar os francezes como eminentemente aptos para a poesia, e ao mesmo tempo e por isso mesmo rebeldes ao senso pratico e á comprehensão das questões positivas?
Creio que não, porque sendo a litteratura, como não podia deixar de ser, o espelho onde se reflecte em toda a sua verdade o genio d'um povo n'uma dada época, um povo futil ha-de ter uma litteratura futil, e é o que se está vendo em França actualmente, e o que se tem visto sempre e em toda a parte em identicas circumstancias: á falta de tino pratico, de seriedade de espirito, de robustez d'alma e de convicções corresponde o abaixamento litterario filho d'essa depressão de espirito e de caracter.
Menos contradictorio com as minhas opiniões actuaes é o facto que me aponta de eu ter trocado a lyra ferrugenta das minhas Alvoradas pelas contemplações astronomicas; já acima lhe disse que foi com as mathematicas que eu me penitenciei do peccado mofino da poesia piegas, e eu nunca dei outra.
Surprendeu-me este periodo do seu ultimo folhetim:
«É facto averiguado pela critica physiologica que a intelligencia varia de homem para homem segundo as mesmas condições physicas do cerebro.»
Se não se offende peço licenca para lhe dizer{126} que eu estou na innocente persuasão de que a physiologia ainda não chegou a averiguar um facto tão importante, a não ser alguma physiologia official ad usum delplini.