Acredito mais que a physiologia em questões de analyse organica, quantitativa e qualitativa, está ainda muito áquem das suas elevadissimas aspirações, e que o ponto que o meu amigo diz averiguado me parece sufficientemente duvidoso para me aconselhar a prudente resolução de ter para com elle uma espectativa benevolente, como se diz em S. Bento.

Isto porém é uma questão incidente, que eu não posso nem sei discutir. Adiante.

Apesar de ter o Legouvé na sua estante, apesar das minhas amigaveis reclamações sobre este ponto, insiste o meu amigo em sustentar que a educação litteraria completa faz mal á mulher e acrescenta:

«Dando-se tão lata instrucção á mulher occasiona-se um desequilibrio na familia, desapparece um dos elementos primordiaes—o pai. Ha um excesso de intelligencia, mas ha uma diminuição de sensibilidade, porque a mulher usurpou as funcções educativas do esposo.»

O meu amigo crê que ha actualmente equilibrio na familia? Mas que qualidade de equilibrio, permanente, estavel ou instavel, e permitta-me, por graça, a caturrice da distincção mathematica? Mas como quer{127} que haja equilibrio se as duas forças que solicitam a familia são desigualissimas e incidentes?... Como ha-de haver equilibrio se o homem, o esposo vive em pleno seculo XIX e a mulher em plena idade media?... Que vê o meu amigo na familia moderna em geral, e não n'esta ou n'aquella familia especial que é honrosa excepção á regra? Marido e mulher são duas creaturas que se não conhecem: o marido trabalha, estuda, pensa, lucta, é funccionario, é politico, é deputado, é escriptor, é poeta, é homem de sciencia; a mulher não sabe em que elle trabalha, não conhece o que elle estuda, não comprehende o que elle pensa, ignora-lhe as ambições, não o coadjuva nas luctas, não o estimula, não o consola, não o anima, por que não póde, por que não sabe, ou melhor, por que nós lhe não damos a força, por que nós lhe não damos educação. O casamento actualmente, em geral, não é a união de dous individuos, de duas forças, de duas almas para a constituição da familia, esta instituição verdadeiramente divina, por que é sublimemente humana, é apenas a juncção de dous corpos, cujas almas ou se desconhecem ou se repellem. D'ahi a desordem ou a indifferença, tomando-se esta muitas vezes por felicidade. D'ahi a crescente desmoralisação dos costumes privados, o celibato commodo e prudente que tem por origem o egoismo; d'ahi o desregramento das ambições politicas e argentarias, como compensação á esterilidade das ambições domesticas legitimas.

Vive-se na rua, por que a casa, o lar só serve{128} para lá ir comer ou dormir, quando se não dorme e come pelas orgias. A mulher não é uma companheira, é um camarada militar, uma creatura que nos escova o fato, que nos arruma o toucador e que nos põe em ordem a mesa do trabalho. D'ahi estes ares ridiculamente protectores que nós nos permittimos com as mulheres; d'ahi estes compadecidos modos cathedraticos com que nós lhes fallamos em letras, em sciencia, em artes, em politica; d'ahi esta nossa insolente superioridade intellectual ganha a custa do isolamento a que as votamos, da ignorancia a que as condemnamos; d'ahi este estado social violento, hypocrita, convencional e esteril em que nos arrastamos sem convicções, sem dignidade, sem enthusiasmo, por que nos vêmos obrigados a estudar a sciencia pelo ganho, a arte pelo lucro, a litteratura por officio, a politica por vaidade; d'ahi esta burguezia de sentimentos, este plebeismo de educação que nos faz tributar uns respeitos hypocritas e convencionaes á mulher, quando a encontramos nos salões de baile, e que nos leva a apedrejal-a quando a encontramos pela rua.

A mulher actualmente ou vive annullada pela ignorancia, ou resignada com o despotismo das leis, ou em guerra aberta com a nossa autocracia conjugal.

Andamos aqui a escrever artigos do fundo sentimentaes e floridos a favor dos escravos do Brazil, e por que não havemos de pedir franca e logicamente a emancipação para a ametade do genero humano? Pois acham utopia ridicula a emancipação da mulher{129} e não acham grotesca a emancipação do escravo? Que maiores direitos tem o negro ignorante e brutalisado pelo chicote á instrucção, á igualdade social, do que a mulher? Utopia! Chamem-lhe utopia embora, mas tenham tambem a franqueza de chamar despotismo e brutalidade ao direito da força. Parece que temos medo do espirito feminino, parece que nos assusta a concorrencia do trabalho intellectual da mulher!...

Dizemo-nos liberaes, e fechamos as portas dos nossos parlamentos á opposição! Parece que nos dóe a consciencia!... Porque não ha-de a mulher collabolar comnosco na obra da civilisação?... Pois a ethnologia nota as profundas differenças de constituição do craneo que caracterisam as diversas raças de homens que povoam o universo, nota ao mesmo tempo a perfeita igualdade d'essa constituição entre o homem e a mulher, e nós, pedindo a brados a igualdade de direitos para todos os homens, sem distincção de raça, pedimos ao mesmo tempo que se neguem esses direitos á mulher porque abusa d'elles? Mas como é que a mulher abusa d'esses direitos, se nunca usou d'elles?... Quem disse que a mulher abusa d'esses direitos?... quem o sabe?... quem o demonstrou? Dil-o a historia?... sabe-o a philosophia?... demonstrou-o a sciencia? Pois démos sempre á mulher a ignorancia pôr dote, e gritamos que lhe faz mal a instrucção? E porque é que a instrucção faz mal á mulher e faz bem ao homem? A muita instrucção embota-lhe a sensibilidade, diz o meu amigo! Perigosa sensibilidade a que{130} prescinde da intelligencia; e é com effeito essa a sensibilidade feminina, sensibilidade desregrada, impetuosa, indomavel muitas vezes, que as martyrisa, que as adoenta, que as exalta, que as perde, porque sentir, na accepção cruamente physiologica do termo, é o unico modo de ser da sua vida interior, vida riquissima de aptidões, mas que nós lhe circumscrevemos aos estreitos limites do trabalho domestico quotidiano, vulgar e quasi mecanico.

A mulher muito instruida é perigosa, diz ainda o Pimentel, por que usurpa as funcções educativas do esposo. Diga-me em que paiz os pais, a não ser os muitos ricos ou os que tenham uma profissão muito especial, educam seus filhos. As funcções educativas do esposo!... Mas então que quer deixar á mulher, se até a esbulha do sublime encargo de primeira preceptora de seus filhos? Nós é que somos e temos sempre sido usurpadores de taes funcções. Eu creio muito pelo contrario que o principal trabalho destinado na familia e na sociedade á mulher é o trabalho da educação, e para educar é preciso saber, e para saber é preciso estudar e pensar, duas cousas que a sociedade prohibe á mulher actualmente.