É convicção minha, e n'isto como em quasi tudo estou com o meu estimavel Legouvé, que a sociedade não chega á solução satisfactoria d'um certo numero de problemas gigantes que assombram o mundo moderno, em quanto a mulher não collaborar com todas as forças de que é capaz na resolução d'essas questões.{131} Por exemplo: as questões de beneficencia, de instituições de caridade, de sociedades cooperativas e de previdencia, com as quaes se prende a magna questão do proletarismo e da miseria, só o concurso do espirito feminino as póde encaminhar para uma solução completa. Depois, e prendendo-se ainda com estas, vem a questão do ensino, em que a mulher póde e deve prestar grandissimos serviços. Depois ainda, ou talvez antes de todas estas, vem a questão religiosa, esta mole gigante que traz ahi a sociedade vergada sob o peso da hypocrisia, da duplicidade, da indifferença da tibieza de caracter, da frouxidão de convicções, do cynismo; esta sphynge esculpida na frente de todas as questões sociaes e para a qual não ha Edipo possivel emquanto a sociedade beber com o leite todos os preconceitos, todos os sonhos, todas as phantasias, todos os absurdos de que se nutre o espirito da mulher contemporanea.
Já vê a importancia que eu dou á educação da mulher; quero essa educação amplissima e tão completa quanto o requeira a aptidão especial que cada mulher revelar. Quero a sua emancipação intellectual, moral, civil e politica... e politica, creia n'isto, por que não sei recuar nem me assustam as consequencias legitimas de principios que considero verdadeiros, embora o mundo, e o meu amigo com o mundo, me taxem de utopista, de exaltado e de revolucionario.
Apresento-me bem a descoberto e francamente n'esta questão, para que o meu amigo ataque tambem{132} francamente os pontos que julgar vulneraveis. Espero-o com o respeito que me impõe a sua superioridade, mas com a coragem que me dão as minhas profundas convicções.
Vou terminar por hoje.
O Garrett, o Lopes de Mendonça e outra gente de cothurno disseram cousas muito boas é muito bonitas ácerca do Genio do Christianismo de Chateaubriand. Sei isso e pouco mais saberei do que isso; mas ou por ignorancia, ou por falta de gosto, ou por caturrice é certo que, apesar de todas essas authoridades, eu considero o Genio do Christianismo um bom livro apenas como producção meramente litteraria, e n'este caso tenho só a observar que o titulo me parece um pouco ambicioso. Como livro de historia porém, e elle tem pretenções a isso, permitta-me dizer-lhe que o julgo deploravel, e como livro de philosophia por que se quer fazer passar, acho-o simplesmente piegas e lamuriante, e olhe que não faço ao livro grande injustiça, creio eu. O meu amigo pensa porém d'outro modo, e eu não lhe quero mal por isso, comtanto que me creia sempre
seu amigo e admirador,
Bragança, 3 de março de 1872.
Alexandre da Conceição.{133}
Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo: