Conservo-me impenitente.
Não me confesso convencido, nem siquer vencido, apesar do Conceição ter já começado a cantar-me piedosamente o De profundis.
Quero ainda enviar-lhe um grito de vida e rebellião da margem do imaginario sepulchro para o fundo da qual o meu amigo julgou arrojar-me com a sua argumentação um pouco sophistica, é certo, mas sempre habil e benevola. Não acabou esta amigavel pendencia pela morte d'um dos contendores, como vê; ella é que de per si mesma, como o meu amigo deu a entender com a sua phrase do dize tu, direi eu, se está contorcendo nos derradeiros paroxismos, porque realmente não tem vida para mais.
Deixe-me dizer-lhe pela ultima vez a minha opinião,{134} que se me afigura sempre a mesma. Supponho eu que me tenho conservado no terreno onde comecei a pugnar.
A mathematica é uma sciencia positiva, em que a razão caminha de demonstração em demonstração até chegar á verdade final,—a conclusão. Por conseguinte póde-se ter á conta de gymnastica intellectual, que, á força de evoluções trabalhosas, chega a descortinar ao espirito por ella cultivado as eminencias olympicas, defesas á vulgaridade chata.
A litteratura é caprichosa como a borboleta, adeja, volteia, sobe, desce, doudeja, vive da imaginação, por ella e só para ella, porque muitas vezes, poderia dizer quasi sempre, o ideal a que aspira é uma ficção, uma utopia, um ponto vago, emfim. É por isso que os grandes poetas, e os grandes artistas tambem, são uns doudos sublimes, que pensam umas chimeras côr de rosa que a multidão não entende; e é por isso que antes querem morrer abraçados ao seu ideal do que transigir com a realidade das cousas e dos homens. Ora o mathematico não phantasia, não devaneia, não sonha,—raciocina. Segue um methodo, um processo, um calculo. O poeta é livre, póde escolher voluntariamente o seu norte, póde amarar a gondola da sua imaginação por aparcellados pégos, como Byron, ou deixal-a deslisar mansamente pelos lagos serenos da Italia, como Lamartine.
Agora pegue d'uma alma poeta de vinte annos, essencialmente livre e essencialmente sonhadora, e em{135} vez de a educar em Homero, em Virgilio, em Dante, em Camões, em Garrett, metta-a no carcere do positivismo mathematico, a rações de Serrett ou quejandos, entre um compendio arido e uma lousa funebre. Não quer sujeitar-se, resiste, lucta, e o mais das vezes o que lhe acontece é renunciar á gloria d'um pergaminho academico para ficar em plena posse da sua liberdade intellectual. É como se transportassem subitamente um viajante, que vai atravessando uma campina florida, a uma charneca solitaria, coberta por um céo plumbeo. E resiste, e lucta este poeta de vinte annos porque nasceu fadado para outros destinos, e aborrece a mathematica, e detesta-a, porque uma voz intima lhe diz que a sua missão é cantar como os rouxinoes dos salgueiraes, viver devaneiando como elles, e morrer de cansaço modulando á porfia com o echo melodioso do seu ideal...
Note que eu fallo, e sempre fallei, dos que nascem predestinados para a gloria, dos grandes poetas e dos grandes mathematicos, porque um poeta mediocre e um mathematico igualmente mediocre fazem-se, conseguem fazer-se com o auxilio d'uma paciencia evangelica.
Disse eu e repito-o:
«Não admira que os grandes mathematicos sejam ao mesmo tempo grandes poetas, porque quando a intelligencia attinge o maximo grau de desenvolvimento, está apta para abranger todos os conhecimentos humanos.»{136}