Então um homem que tem uma intelligencia acima do vulgar, que atravessou uma longa educação scientifica, que sujeitou a razão a uma trabalhosa gymnastica intellectual, não estará mais habilitado para comprehender toda a casta de bellezas artisticas, do que um sugeito que não sabe analysar grammaticalmente uma oração? De certo que sim; isto é intuitivo a meu vêr. Ora o grande mathematico póde comprehender Homero, tel-o á cabeceira como Alexandre, mas o que não póde conseguir de certo, salva uma ou outra rarissima excepção, é escrever a Illiada, e ser Homero. Um grande poeta, Lamartine ou Byron, pouco importa, não comprehenderá melhor que outro qualquer homem a alma sublime de Herschell ou Newton, apesar de reconhecer comsigo mesmo que não nasceu para se nivelar com Newton ou Herschell? Tambem creio que sim; tambem creio que isto é intuitivo.
O meu amigo accusa os francezes de devaneiadores e por isso mesmo de pouco analyticos, de pouco mathematicos. Quer dizer, accusa-os de viverem para o amor e para a alegria, de amarem as flôres, os versos e as mulheres, e de não preverem as funestas consequencias, já realisadas, da ultima crise sociologica.
É tambem certo que quando a França dava ao mundo um grande mathematico, primeiro havia gerado uma duzia de grandes poetas. Porque é então? Porque isto mata aquillo, porque a mathematica, que é a razão, mata aquillo, a poesia, que é a verdadeira liberdade da phantasia e do coração.{137}
O meu amigo, que era mavioso poeta,—sinceramente lh'o digo,—teve de suffocar em si a chamma vivaz da inspiração com os gelados orvalhos das sciencias exactas. D'outro modo, teve de esmigalhar a sua alma, por amor aos cabellos brancos de seu pai, que lhe queria dar uma posição social, para poder regressar ao lar paterno com uma carta de bacharel em mathematica. A inspiração de que brotaram as Alvoradas era dôce, gentil e donairosa. Todavia o Conceição quiz abafal-a, apagar a chamma, desfolhar no altar da sua mocidade as flôres candidas e perfumadas da poesia. Teve de andar nos campos a medir terrenos, a rasgar estradas, a levantar plantas.
Tranquillisou a velhice de seu pai, e como elle já não podia receiar pelo destino do filho estremecido, e o meu amigo tivesse em horas de melancolia umas secretas saudades dos seus tempos de poeta, porque para isso nascera, esboçou no seu gabinete um quadro, cuja idéa é formosa, mas que não tem, a meu vêr, o colorido mimoso e delicado dos seus primeiros versos. Refiro-me ao seu poemeto—Abençoada esmola—e desculpe-me esta franqueza, que a nossa amizade authorisa de certo, e que eu tenho comsigo, porque sei que é franco, leal e cavalheiro.
Conhecia-se que o poeta se havia secularisado. Infelizmente era assim.
Do Alexandre da Congeição, o academico sempre apercebido para celebrar as grandes iniciativas e as grandes glorias, restava o poeta esmagado pela pressão{138} da mathematica. Creio que a sua propria consciencia lhe ha-de dizer isto mesmo.
Ah! meu amigo, como eu quizera vêr o seu espirito a espannejar-se ainda, livre, alado, inquieto, deixando vêr aqui e acolá a dôce melancolia das suas estrophes! Perdemol-o, confessa o meu amigo que se secularisou, e eu sinceramente sinto que tenha de sahir pela honra do seu convento mathematico para digladiar com o mais obscuro soldado das suas antigas fileiras.
Ponho aqui ponto para que isto não enfade mais o bom publico que nos escuta, e que por fim de contas não nos quer mal. Não é meu proposito, entenda-se, mostrar que o meu amigo vai succumbir a este golpe final. Eu conheço a qualidade das minhas armas, e os recursos da sua vasta intelligencia. Confesso-me não convencido nem siquer vencido, e sou eu mesmo que declaro ao publico que o meu amigo dispõe de meios que lhe permittem resistir á minha lastimavel dialectica.
Tratarei de passagem os demais pontos da sua terceira carta.