Pythagoras acreditava na harmonia como alma do mundo, e era d'esta grande alma collectiva que dimanava a substancia harmonica das almas particulares.
Seja o que fôr a musica, venha ella do céo ou da terra, dos astros ou dos homens, bemdita seja, que nos leva após si a umas paragens ethereas de um paraiso desconhecido. Abençoados sejaes, sacerdotes do bello, que lançaes para dentro da nossa alma a esmola valiosa da harmonia.
Entre os maximos sacerdotes da arte divina, avulta o perfil venerando de Beethoven.
Este nome é per si só uma epopêa.
Tem a grandeza do mar, e a irradiação do sol.
Em torno do berço d'este homem sublime quer a nossa imaginação que volitassem as particulas sonoras, exhaladas da grande alma harmonica da terra, na philosophia devaneadora de Pythagoras, e que perpassando em revoltos enxames no espirito do futuro maestro o afinassem pelas mais dôces harmonias da musica universal e pelas mais dôces gravitações dos astros melodiosos.
Todavia a historia é que não admitte hypotheses romanescas e devaneios poeticos; e á historia pertence o testemunho de Baden, companheiro da infancia de Beethoven, pelo qual sabemos que os primeiros rudimentos de musica os aprendera elle com violencia, e que só abancava ao piano quando a voz paterna trovejava ameaçadora.{148}
O grande genio de Beethoven faz lembrar o oceano velado pela neblina.
É um abysmo que se não póde abranger com a vista através do vaporoso involucro. Mas ao primeiro raio de sol vôa desfeito o véo, e arqueiam-se as vagas, e doudejam as espumas, e scintillam as escamas crystallinas, e tudo são fremitos, movimentos, prodigios,—e apparece finalmente o mar, pregoando Deus e assombrando os homens.
O véo que resguardava o genio colossal de Beethoven voou todavia em fragmentos, volvidos os primeiros annos da vida, como a neblina se rarefaz ao primeiro raio da aurora.