Cortadas as suas relações com o mundo exterior, doente, melancolico, quasi surdo, concentrava-se todo nos seus arroubos artisticos. Passeava pelos campos, horas seguidas, e era, passeando, que elle compunha, a despeito da opinião geral de que a posição perpendicular é a que menos favorece os actos do espirito, e a mais adversa á inspiração.
Vem de geito arrancar, n'este ponto, uma pagina{151} dos Grotesques de la musique, de Hector Berlioz, porque frisa ao nosso caso:
«A posição horisontal é evidentemente a mais favoravel ao trabalho da intelligencia, á expansão do espirito, e isso concebe-se. O nosso cerebro é a caldeira onde se formam os vapores conhecidos pelo nome de idéas, que fazem marchar e muitas vezes desencarrilhar a trem das cousas humanas; o sangue e a agua ebulliente que ahi se transforma em vapor; todos os physiologistas vol-o dirão. Quanto mais este liquido affluir facilmente á caldeira, tanto mais, e necessariamente, deve produzir idéas ou vapores.
«Voltaire doente, e por conseguinte, deitado quando escreveu a Candida, gozava de vigorosa saude quando poz mão na Henrieida. Bernardin de Saint-Pierre trouxe das Indias, segundo dizem, uma rede onde gostava de se deitar para compôr; foi onde elle pensou as suas deliciosas obras primas, Paul et Virginie e a Chauniére de la Nature. Quando em seguida compoz as Harmonies de la Nature e quiz explicar o phenomeno das mares pela liquidação dos gelos polares, já a rede estava velha, e não pôde servir-se d'ella.».
Quando o povo de Baden ou de Vienna via passar Beethoven, rapido como a sombra, mas triste, melancolico, concentrado, sentia-se tornado de subito respeito, e crianças, velhos e mulheres não o deixavam de saudar com estas palavras: «Alli vai Beethoven!» saudação que o maestro não podia ouvir, mas que era um preito espontaneo de admiração.{152}
Como n'essas longas horas de excursão campestre ou urbana redemoinhariam na alma de Beethoven as recordações dolorosas de melhores tempos! A imagem de Leonor, da querida confidente dos primeiros annos, devia de apparecer-lhe desenhada no horisonte longiquo do passado, colorida com aquellas meias tintas que a saudade sabe dar. Ter-se-iam amado? A menor observação dos factos parece demonstral-o. D'uma carta escripta a Leonor de Breuning em novembro de 1793 claramente se deprehende que foram dissenções de familia que separaram para o resto da vida os dous amigos de outr'ora. Todavia a distancia não pôde endurecer o coração, porque, na mesma carta, dizia Beethoven em tom de meio segredo:
«Para terminar, arrisco-me a fazer um pedido: julgar-me-ia feliz, se possuisse um collete de pêllo de coelho, costurado pelas vossas mãos, minha cara amiga. Perdoai ao vosso amigo este pedido indiscreto. Culpa é do muito valor que eu ligo a tudo o que vos sahe das mãos, e depois tambem posso dizer que ha no fundo de tudo isso uma pequena vaidade: é poder dizer que possuo alguma cousa da melhor e da mais estimavel filha de Bonn.
Conservo ainda o primeiro collete que tivestes a bondade de me dar, em Bonn; mas a moda proscreveu-o e agora só me resta conserval-o n'um guarda-roupa, como um objecto que me é muito caro porque vem de vós...»
Ah! o coração namorado palpita ainda sob estas{153} formulas respeitosas da epistolographia. É manifesto. O collete, costurado pelas mãos de Leonor, queria-o Beethoven para que o peito lhe estivesse hora a hora segredando umas recordações sempre vivas.
Foi satisfeito o pedido? Foi e não foi. Em vez d'um collete, recebeu Beethoven uma gravata, o que não é menos significativo, porque uma gravata, dada por uma mulher, é o mesmo que dizer-nos ella: «Com este delicado esparto estrangula tu todas as palavras que não sejam para mim.»