Beethoven agradeceu epistolarmente: «A bella gravata, obra de vossas mãos, causou-me a mais viva surpreza. Despertou em mim um sentimento bem doloroso, apesar do mimo do presente: fez-me renascer a recordação do tempo passado, e a vergonha, que me cabe, ao vêr como sois generosa para commigo...»

Em 1806 o nome de Leonor é substituido pelo de Julieta, em tres cartas, das quaes se deprehende que o destino havia cavado um abysmo profundo entre as duas almas. As conveniencias, mais talvez que as conveniencias, as circumstancias, obrigaram Beethoven a lançar este véo transparente sobre a imagem de Leonor. O segredo desvenda-se, e a historia não póde duvidar.

Os ultimos annos da vida de Beethoven foram o declinar d'um nervoso, que sente accumularem-se as sombras da melancolia sobre a lampada interior, já bruxoleante.

De longe a longe descia um raio de sol aos carceres{154} d'aquella alma. Os nervos, fatigados de continuas descargas electricas, descançavam por momentos. N'essas raras intermittencias de paz, lia Homero, o seu poeta favorito, e as novellas de Walter Scott, o seu romancista dilecto.

Á surdez sobreveio a hydropesia, e Beethoven acamou durante quatro mezes, findos os quaes foi transportado ao sepulchro.

O catre onde agonisou cento e vinte dias realisou as angustias do leito de Procusto. A alma, mortalmente entenebrecida, gemia dentro do ergastulo dos nervos, cada vez mais excitados.

Uma atmosphera de melancolia enchia a camara, e as poucas palavras do maestro ressumbravam o fel do sarcasmo ou a lava do desespero. Nem o governo, nas suas espheras mais elevadas, escapava ás verberações de Beethoven. «Escrevei uma collecção de psalmos de penitencia,—dizia elle a Hummel—e dedicai-os á imperatriz.» Era ainda a Hummel que elle confidenciava entre afflicto e pensativo: «Sois feliz, porque não vos falta uma mulher que vele por vós. Mas eu, ai de mim, povero que sou!»

N'uma das poucas horas de tranquillidade, esboçou no papel a casa onde nascera Haydn; pendurou o desenho á beira do catre, e por mais de uma vez revelou que lhe era consolação estar contemplando as paredes dentro das quaes viera á luz do mundo um grande homem.

Dous dias antes de morrer, sentado no leito, apostrophava{155} a duas pessoas que acabavam de entrar no seu quarto: Plaudite, amici, comoedia finita est. Nas horas que lhe restaram de vida parece que não mais referveu nos seus labios a espuma da ironia. Assim partiu da terra, angustiada por um soffrimento inexplicavel, a grande aima do Goethe da musica, como lhe chama Deschanel. E é certo que os livros de Goethe e as partituras de Beethoven resumem o que ha de mais profundo no pensamento humano. São como os grandes lagos, que ora se anilam sob um céo transparente, ora se revolvem e entenebrecem agitados por mysteriosas correntes.

Perto de Schoenbrunn ha ainda dous carvalhos vetustos, entre os quaes Beethoven costumava sentar-se para descançar dos seus longos passeios, mas as frondes annosas, que deixam cahir uma sombra espessa sobre o pouso devoluto, não contam ás gerações os monologos do maestro, nem quantas vezes lhe ouviram ciciar nos labios o nome de Leonor...{156}