Elle era moço e artista. O pai adivinhou a gloria d'aquelle destino, e disse-lhe:—Parte.{158}
E partiu, alegre, descuidoso, pensando um pouco na gloria, alguma cousa no amor, e namorando-se mais que do amor e da gloria d'aquella Italia formosissima em que nascera e em que primeiro devia amar.
Dias depois entrava no atelier de Perugino, em Perugia. Um artista hospedava outro.
A recepção foi cordial. Todavia Raphael, porque era elle, queria ser mais alguma cousa do que um simples hospede,—ambicionava ser discipulo.
Esboçou os primeiros quadros, coloriu os primeiros contornos, e o mestre inclinado sobre o hombro do moço pintor já o não queria só como hospede nem o quereria já como rival.
Tinha dezesete annos.
Sorria-lhe a vida e a gloria. Começára pelos retratos, adestrára-se a mão, e Perugino ficára vencido.
Um dia o discipulo quiz voar mais longe, e começou um quadro de largas dimensões, o celebre Sposalizio, cujo assumpto delicado e formoso é o Casamento da Virgem.
O artista queria emancipar-se da tutela de Perugino, mas o discipulo, respeitoso e grato, afogava a sua individualidade na maneira do mestre.
Aos vinte annos, todo o talento, que tem balbuciado até ahi, procura quebrar as gramalheiras da imitação.