É a época da liberdade.
Raphael foi encarregado de coadjuvar o seu condiscipulo Pinturricchio na reforma artistica por que ia{159} passar a cathedral de Sienna. Mas Raphael foi mais de que um obscuro collaborador n'aquelle maravilhoso poema da pintura.
Do seu pincel desabrocharam os graciosos frescos, cheios de vida e mocidade, que ainda hoje se conservam em todo o esplendor da belleza.
Um talento assim é tambem athleta; quer luctar. Florença era então a arena dos grandes artistas. Miguel Angelo e Leonardo de Vinci estavam em campo. Perugia era já pequena para Raphael. Partiu para Florença onde podia justar com os dous maiores pintores da Italia. A esperança era o seu anjo da guarda;—a gloria o sonho de todas as horas.
Ah! Florença! Como elle se sentia bem alli, pensando, executando, e dividindo o tempo com a arte e com o amor!
Fóra do atelier, esperavam-n'o os sorrisos da ramilheteira, a fioraia; quando estava trabalhando, tinha perto de si as flôres d'ella. E tanto a amava, e tanto a tinha presente quando não a via, que o seu pincel a reproduziu espontaneamente na Bella Jardineira, a primeira Virgem de Raphael, quadro admiravel conservado ainda hoje na galeria do Louvre.
Era o cartel atirado a Miguel Angelo e a Leonardo de Vinci. Estava travada a lucta entre os poderosos athletas.
Occupava n'esse tempo o throno pontificio o papa Julio II. Roma ia envolver-se n'um manto de roçagante magestade.{160}
Levantavam-se templos, erigiam-se palacios, encommendavam-se quadros. O torneio das artes mudava-se de Florença para Roma. Alli era a capital do mundo, alli pulsava o coração da Italia; grandeza, esplendor, deslumbramentos olympicos, tudo havia alli.
O architecto encarregado de velar por todas essas maravilhas da arte era Bramante, tio de Raphael.