O amor foi vencido pela gloria. Veio de Roma um convite. Raphael despediu-se da fioraia e aceitou, entre triste e distrahido, umas flôres que ella lhe dera orvalhadas de lagrimas. A florista de Florença ficava com a immortalidade que lhe dera o seu amante; Raphael partia lendo na vastidão do horisonte a epopêa do seu destino...
Roma foi em todos os tempos a fascinação dos artistas. Tudo lá tem voz para cantar as grandezas do passado, e os monumentos arruinados rumorejam ainda hoje as legendas dos maiores artistas do mundo.
Apresentado ao papa Julio II, sentiu-se maior que nunca; o seu pincel era a vara de condão que devia desencantar as maravilhas do Vaticano. Começou pela sala de la Segnatura. O grande pintor mostrou a valentia do seu pulso em quatro quadros differentes que decoram a sala:—a Theologia, a Philosophia, a Poesia e a Justiça.
O papa entrou um dia á sala onde Raphael trabalhava. Extasiou-se diante do prodigio; chamou quatro operarios e mandou desfazer a martello os frescos que os predecessores de Raphael haviam pintado. Já era{161} muito e ainda não era tudo;—começava a realisação do sonho.
E todavia nos jubilos de Raphael perpassava, de momento a momento, uma sombra; era o pincel de Miguel Angelo. Ambos tinham sido chamados a Roma, collaboravam ambos n'aquella immensa epopêa da renascença artistica da Italia, e todavia não fraternisavam em amiga communhão, nem siquer se tinham permittido a mutua contemplação dos seus quadros. Trabalhava um na capella Sixtina; o outro nas salas do Vaticano. Sempre que vinha a geito o confidenciar com seu tio, ahi lhe segredava Raphael o immenso desejo de conhecer as obras primas de Miguel Angelo. O velho artista ouvia-lhe as confidencias e sorria-se. Mas um dia, Bramante, aproveitando a ausencia de Miguel Angelo, que trazia entre mãos o Juizo Final, abusou da sua qualidade de architecto e entrou com o sobrinho á capella. O mesmo foi pascer Raphael os olhos nas telas de Miguel Angelo e deletrear os segredos artisticos que deviam operar a rapida transformação porque passou o seu talento audaz e gigantesco. A historia consigna muitos d'estes factos, em que um artista que começa parece aquecer-se para uma vida nova nas labaredas que illuminam a alma de outro artista já feito. Corregio, ao relancear os olhos á Santa Cecilia de Raphael, exclama arrebatado: «Anch' io son pittor!»—La Fontaine, ouvindo uma ode de Malherbe, sente incendiar-se-lhe a alma no fogo da inspiração.
Passados dias, Miguel Angelo entra ás salas do Vaticano{162} e não póde conter um grito de admiração. «Ah! disse elle, Raphael imita-me; Raphael estudou-me; Raphael viu o que eu tenho feito!»
E n'esta apostrophe em que espontaneamente rebenta o sincero orgulho d'um grande artista, Miguel Angelo prophetisa, sem o desejar talvez, a gloria que esperava Raphael, como Mozart prophetisa por uma intuição artistica o destino esplendido de Beethoven, e Haydn os triumphos ruidosos de Mozart.
Eram tres homens, Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci que deviam coroar o assombroso monumento do espirito humano começado por Dante e Giotto.
Dante, como diz Charles Clement, resuscita a poesia, Giotto a pintura; Brunelleschi levanta o zimborio de Santa-Maria-del-Fiore; Colombo descobre um mundo; Copernico as leis do universo; Guttemberg espanca as trevas profundas da ignorancia; Savonarola e Luthero despertam a consciencia individual;—Miguel Angelo, Raphael e Leonardo de Vinci rematam a corôa da renascença artistica. Começa o dia da gloria depois d'uma longa noite de dez seculos. Do attrito da antiguidade com a idade media resalta a centelha que devia animar a litteratura, a historia e a arte.
Os iniciadores d'este movimento revolucionario sahiram da raça latina, e portanto eram pagãos. Assim se explica como o paganismo resuscita no catholicismo, como Jupiter se transforma em Christo, e Venus em Magdalena e na Virgem. Da religião catholica{163} nasce a poesia moderna. É um papa, Julio II, que reune em Roma os maiores pintores e os maiores architectos.