As madonas de Raphael teem uma belleza pagã.
A renascença conspira contra o ascetismo primitivo, e assim se inaugura a pintura da historia, porque, como reflectidamente pondera Louis Pfau, a renascença não viu na religião mais que a historia sagrada, e na historia sagrada mais que a historia da humanidade.
Ao tempo que o talento de Raphael começava a assombrar a Italia inteira, um opulento negociante de Sienna, Agostino Chigi, confiou do seu pincel a decoração d'um palacio que mandára construir nas margens do Tibre. Raphael quiz ainda dizer o derradeiro adeus á antiguidade, e, antes de voltar ao Vaticano, pinta para o palacio de Agostino dous quadros notabilissimos—Galathea e Psyché.
Era então um rapaz que se atirava ao turbilhão da mocidade, ebrio d'esperança e gloria. Sobre o seu temperamento divergem todavia as opiniões; o doutor Macedo Pinto[10] cita-o como sanguineo, e Emilio Deschanel attribue-lhe uma organisação essencialmente nervosa, como a de Bellini e Beethoven.
Todavia o maior numero d'historiadores revela-nos que era de melindrosa compleição, e nós, estudando vagarosamente a sua biographia, cuidamos vêr{164} n'elle um nervoso-sanguineo, dotado d'um espirito brilhante, d'estes que parece viverem em incessante combustão, como a salamandra dos antigos vivia nas labaredas fabulosas, e naturalmente propenso aos prazeres desregrados e ás expansões vehementes.
Era gentil, tinha uns bellos olhos, rasgados, dôces e meigos, e os seus cabellos pretos, que elle tantas vezes reproduzia em seus quadros, davam-lhe ás faces morenas uma expressão de encantadora doçura.
Foi em Roma, que elle amou uma rapariga do povo, fornarina, a filha do padeiro.
Muitas vezes, emquanto pintava a Galathea, abandonava a paleta para ir vêr fornarina, cujo retrato se reproduz em quasi todas as obras da segunda metade da vida de Raphael.
Por uma d'aquellas manhãs formosas da Italia, em que todo o céo se esbate n'um azul delicioso, fornarina, que estava cuidando d'umas flôres dispostas na janella, levantára de golpe a cabeça, ao sentir passos conhecidos. Se visseis afoguearem-se-lhe as faces no suave carmim das rosas que desabrocham, e brilhar-lhe nos olhos a luz delicada das estrellas que palpitam, dirieis que chegava Raphael.
—Raffaelo! exclamára a fornarina.