—Querida! suspirára Raphael. Não ames tanto as tuas flôres, que eu tenho ciumes d'ellas.

—Que remedio! Se é preciso amar as flôres para merecer o teu amor! Já te não lembras de Florença?...

—Ah! sempre cruel e formosa!{165}

—Quero vêr se, á força de cuidar nas flôres, chego a adquirir os encantos da fioraia.

—Por Deus, querida, que me despedaças o coração! Por Deus te juro, que o meu amor é só teu. Não falles da fioraia, que é apenas uma recordação. Todas as flôres de Florença não valem essa poeira branca que te cobre as tranças e faz lembrar a neve da manhã que polvilha a rosa. Querida, se tu soubesses com que vertiginoso enthusiasmo eu vou copiando nas faces da Galathea o colorido da fornarina! Quero deixar o teu retrato no palacio de Agostino; preciso que todos saibam que te amei. Se visses a Galathea, conhecias-te. És tu mesma, é a tua formosura animada pelo meu amor.

—Raffaelo, e as flôres que trouxeste de Florença?

—Seccaram. É o destino das rosas que vivem um só dia.

—Ah! E o amor da fornarina ha-de extinguir-se um dia como as flôres da fioraia. De mim, só ficará no teu coração o orgulho de haveres pintado a Galathea. O quadro, porque é d'um grande artista, ha-de subsistir; mas a lembrança do modêlo ha-de apagar-se primeiro que a tua vida. Que resta da fioraia? A Bella-Jardineira. Que ha-de ficar da fornarina? A Galathea. Ella era mulher do povo; eu tambem sou. Cabe-nos a mesma sorte;—o esquecimento. O teu amor é um capricho de artista; é mais um devaneio da tua phantasia, que uma necessidade do teu coração. O artista copia, mas o homem não ama.{166}

—Ah! que me offendes. Cala-te, por Deus. Eu não quero que me fira o espinho do resentimento quando encostar a cabeça ao teu regaço no lance extremo. Estou doente, se estou! Tenho vivido só, de sonho em sonho, de esperança em esperança. Sinto que a febre me incendeia o cerebro. É o cansaço. Eu só tenho espirito, e o espirito ama, delira, ensoberbece-se. O espirito dos artistas é lava;—queima, escalda, por isso o corpo succumbe. Restas-me tu, querida. Quero morrer encostado ao teu seio; que os teus labios recolham o ultimo suspiro da minha vida...

—Raffaelo, como estás triste, como és apprehensivel! Oh! se te amo perdidamente, loucamente! O ciume é irmão gemeo do amor; não andam um sem o outro. Perdôa-me os desvarios do coração. Culpa é de te amar tanto... Está formoso o dia, o sol é italiano como tu e como eu. Não falles em tristezas, em soffrimentos. Tu, que tens vivido a luctar, não succumbas a ti mesmo. Levantei-me alegre, quando a luz da manhã entrou pela casa dentro. Vim cuidar das minhas flôres, que são tuas. Olha que bonita rosa esta! Sabia que para ti nascia, desabrochou para fazer inveja ao teu pincel. Não ha mais dôce carmim! Olha... Como é formosa!