Raphael levou a rosa subitamente aos labios e depois deixou-a cahir no seio.

D'outra vez tinha elle acabado um quadro primoroso destinado ao convento do Monte-Oliveto, em Palermo. Correu voz em Roma de ter sossobrado o navio{167} que transportava o quadro. Raphael, como se o seu talento precisasse de novos titulos de gloria, sentiu-se profundamente triste ao saber que perdera uma das suas primeiras obras. Foi nos braços de Fornarina que elle despeitorou as suas tristezas d'artista.

—Ah! dizia-lhe elle, era uma formosa cabeça de Christo, em que eu pozera extremo cuidado. E tinha sido feliz na expressão de soffrimento, na pallidez dolorida das faces, na suave tristeza que desabrochava em sorrisos...

—Tenho ciumes, Raffaelo. De quem é o teu amor? Meu ou da tua gloria? Fallas d'um quadro que perdeste! E a Disputa do Santo Sacramento? E a Escola de Athenas? E Psyché? E Galathea?—a Galathea que sou eu, que deve ser o teu quadro dilecto, por que te ama, por que corresponde ao teu amor d'artista! E o Vaticano, Raffaelo? O Vaticano onde o teu nome fica para sempre escripto, para sempre coroado pela maior das realezas do mundo—a gloria!

Volvidos dias, chegava noticia a Roma de ter abordado ás praias de Genova a caixa que encerrava o quadro destinado ao mosteiro de Palermo. Perdera-se o navio, a tripolação e as mercadorias, mas o mar respeitára o quadro de Raphael e restituira-o, depondo-o cautelosamente n'uma praia italiana... A magestade do mar tinha respeitado a magestade do genio.

A Transfiguração, quadro encommendado pelo cardeal Julio de Médicis, foi o ultimo, se bem que se possa dizer o primeiro de Raphael. «Ha n'esta composição—escreve{168} Valentin no seu livro Les peintres celébres—figuras tão bellas, cabeças de um estylo e d'um caracter tão novos e tão variados, que tem sido olhada, e com razão, por todos os artistas, como a obra mais admiravel que produziu o pincel de Raphael.»

Havia pouco tempo que estava concluido o quadro da Transfiguração, quando, habitando em Farneto, recebeu ordem para vir a Roma. Deu-se pressa em obedecer, e chegou coberto de suor ao Vaticano onde se demorára n'uma das vastas salas fallando largamente da fabrica de S. Pedro. Resfriou e, poucas horas depois, entrava em casa subitamente atacado d'uma febre perniciosa, que o arrastou ao tumulo.

Quando Fornarina se abeirou do leito, turbaram-se de lagrimas os olhos de Raphael.

—Parte, disse-lhe elle. Esperava morrer nos teus braços, mas não posso. Falta-me a coragem. Sempre ha-de haver quem me feche os olhos. Deixa esse triste encargo a Julio Romano que é mais que discipulo do amigo,—é amigo do mestre. Deixa-me vêr bem os teus olhos; quero recordar-me da Glycera. Como me estou lembrando das minhas horas de arroubado trabalho no palacio de Agostino! É o ultimo clarão da memoria que se extingue. Ah! parte, querida, parte. Quero poupar-te ao doloroso espectaculo d'um cadaver alumiado por quatro cirios...

N'este momento entrava Julio Romano.