É impossivel ir mais longe.

É impossivel saber aproveitar melhor o reflexo interior para fazer resaltar do prisma fornecido por Buffon scintillações de tal modo deslumbrantes e magicas.

A Physiologia dos escriptores e dos artistas é um espirituoso livro, e Emilio Deschanel um espirituoso escriptor que eu tenho conversado nos ultimos serões d'inverno.

Procuremos nós n'esta linguagem facil do folhetim, nortear a penna, a despeito de Paulo Janet, segundo o rumo dos trabalhos de critica natural de Emilio Deschanel.

Não podemos aventurar-nos, como elle, á vasta amplidão das aguas.

Navegaremos terra a terra, modestamente, velejando ao sabor da phantasia. Appliquemos tambem a physiologia á critica, e estudemos em alguns livros portuguezes a organisação d'alguns escriptores nacionaes.

Algumas vezes, é possivel, teremos de abrir excepção{15} para um escriptor que n'um ou n'outro relance, mesmo n'um ou n'outro livro, quiz ou pôde dissimular a sua organisação, o seu temperamento, a sua predisposição. Toda a regra tem excepções; esta ha-de tel-as tambem. O que é certo porém é que o homem, na sua dupla existencia, moral e physica, não póde encobrir-se por tanto tempo, que o physiologista litterario não chegue a encontrar a verdade com o escalpello da critica.

Estão-nos já acudindo á memoria algumas excepções. Aproveitemos uma.

O snr. visconde de Castilho cuja indole amena e suavissima se espraia em recamos scintillantes por todas as paginas dos seus formosos livros, escreveu d'uma vez um poema onde se agita tempestuosamente o sentimento mais violento que póde escandecer o coração do homem,—o ciume.

A sua bibliotheca tem porém só um livro de tempestades e luctas; todos os outros refulgem serenos como os lagos na primavera.