Não é pois sem fidelidade historica que Pinheiro Chagas escrevia, ha pouco tempo, no Diario de Noticias:
«E não foi uma desgraça para a França a morte de Rossel? Foi, era uma cabeça energica, cheia de vida, de talento e de patriotismo, e, o que é mais ainda, cheia de profundissimo desprezo por aquella gente da communa, com a qual a sua ambição e o acaso das circumstancias o tinham obrigado a pactuar. E elles sabiam-n'o, tanto que Rossel esteve umas poucas de vezes para ser fuzilado por elles. A assembléa entendeu que devia cumprir as ultimas vontades da communa,{179} e fuzilou Rossel. Confundiu a causa d'este nobre revolucionario com a dos homens, que lhe causavam a elle repugnancia, quiz dar emfim um martyr á communa! Santa gente!»
A nobre alma de Rossel nada perdeu da sua grandeza epica dentro das quatro paredes do carcere.
A mocidade e o temperamento, duas correntes fataes para o homem, desvairaram-n'o.
«Quando me juntei á insurreição—escrevia Rossel do caderno das suas notas intimas—não contava com o successo, não esperava chegar a uma das primeiras posições. Obedeci a um dever politico; quando rebenta a guerra civil, cada cidadão deve sustentar o seu partido. Republicano, meu lugar era em Paris.»
Que não era ambicioso, especulador e ignobil claramente o evidenceiam estas palavras, escriptas entre ferros, com os olhos postos no tumulo.
Podemos afoutamente acredital-as, porque, como escrevia o padre Passa á commissão d'indultos—sempre se é sincero em presença da morte.» Rossel, antes da deserção, era geralmente estimado pelos seus merecimentos. Até no momento em que mais refervia a onda vermelha da communa, o consideraram os insurgentes dando-lhe um dos primeiros lugares. Mataram-n'o, perderam-n'o. Embriagou-se com o successo que não esperava. Collocaram-n'o na primeira plana da revolução. Era chefe; não quiz recuar. Simples soldado, teria talvez reflectido, teria talvez retrocedido{180} á voz de seu pai para offerecer mais um braço á causa da ordem, que era a causa da patria.
Os estudantes de Pariz foram a Versailles pedir o perdão de Rossel. A manifestação foi ruidosa, compacta, mas prudente. Era a derradeira esperança. Todavia o tronco venerando da republica queria sacudir de si as ultimas folhas denegridas pela polvorada da communa. Sibilaram as balas,—as folhas cahiram. A republica deixava passeiar impunemente em França os mais respeitados amigos da communa, a republica deixava resfolegar a Internacional, mas mandava fuzilar Rossel.
Ferré e Bourgeois não mereciam a camaradagem de Rossel, ainda quando os comecemos a estudar no carcere. Todos os que visinharam de Rossel se sentiram commovidos: Cassel, carcereiro; Alberto Joly, seu advogado; o padre Passa, seu director especial.
Momentos depois de commungar, escrevia Rossel esta carta a uma das mais queridas pessoas da sua familia,—sua avó: