Bourgeois, atordoado pela embriaguez, deixa-se vendar com indifferença.
Ferré não consente que lhe velem os olhos, e, materialista, não se dispensa o ultimo regalo;—morre de cigarro na mão, como quem sahe d'uma taberna.
Momentos depois entrava o velho pai de Rossel no quarto d'onde sahira o filho. Ao assomar á porta, descobre-se respeitosamente. Alvejam-lhe na cabeça as cans da velhice; tremem-lhe nos olhos as lagrimas da saudade; agita-se-lhe o peito n'uma ancia offegante.
Está ainda distincta a pequena cavidade onde descançára a cabeça de Rossel. O velho pai, antes de se ajoelhar, curva-se para o catre, e pousa os labios descorados no travesseiro.{184}
O carcereiro, testemunha unica d'esta scena, chora copiosamente, e, instantes depois, quando aperta nos braços o tremulo corpo do velho, orvalha-lhe os cabellos brancos com as lagrimas que não póde reprimir.
Quasi ao mesmo tempo, o padre Passa amparava contra o peito as cabeças latejantes de duas creancinhas vestidas de preto,—Bella e Sara, e dizia-lhes commovido:
—Não choreis, meus anjos, que vosso irmão está no céo. Acompanhei-o até que Deus m'o recebesse. Não choreis por elle, que é de certo feliz.
A imprensa ingleza, como se ouvisse chorar estas duas creanças, levantou-se em massa para protestar contra a morte de Rossel.
A republica, que é o regimen da equidade, na bocca dos fanaticos, fez justiça e contentou-se com entregar o cadaver do condemnado á familia que o reclamára. Famosa ironia da republica!
O cesarismo dava a toda a França festas ruidosas que deslumbravam o mundo. A republica, menos generosa que o cesarismo, apesar de não menos opulenta, cede galhardamente a cada familia o cadaver d'um homem que lhe pertencia.