«Mas eu tenho confiança—diz minha mãi—eu{182} tenho confiança; elles não te farão nada.» Pai, falla d'outra cousa: do forte de Santa Margarida, do ultimo desenho que eu fiz, d'aquelle que vou fazer; minha mãi fez-me prometter-lhe dous, e justamente, acabei-lhe o segundo esta noite, feliz por fazer alguma cousa para ella.
A pequenita não chora, mas tem o coração cheio de lagrimas.
«Tambem a ti—lhe digo-eu—tambem te fazem soffrer!» N'este meio tempo, ella rompe em soluços, por que lhe faltou a coragem.»
Os seus ultimos momentos foram para a sua alma e para a sua familia.
Está revestido d'uma resignação providencial. Vai morrer, porque deve morrer. Não treme. Mas, ao fallar de seus paes, de suas irmãs, dos seus, salta-lhe dos olhos uma lagrima. Era a ultima. O valente não tornou a chorar. Quer porém mandar-lhes a ultima palavra de saudade. Escreve-lhes, levanta-se tranquillamente da mesa, e abre com firmeza a porta do quarto. Chega o momento de partir. Entram os soldados e choram de o vêr. O gendarme que o tem de algemar estremece e perturba-se. Rossel agradece meigamente as lagrimas que lhe dão, abraça Alberto Joly, abraça o carcereiro Cassel, e desce ao pateo, escoltado pelos soldados e acompanhado pelo padre Passa.
Ferré é grosseiro e materialista. Despede estultamente o capellão Folley e escreve a suas irmãs,—crentes{183} e nobres corações de mulher, de certo—que vai morrer como viveu: sem crenças religiosas!
Bourgeois, igualmente sordido, mas menos perigoso talvez, come e bebe no seu quarto, embriagando-se para a morte.
Pois bem. O mesmo pelotão fuzilou Rossel, Ferré e Bourgeois. O governo de Versailles foi injusto. Não devia emparceirar estes tres homens.
Rossel chega ao lugar da execução acompanhado pelo seu confessor, como se quizesse que elle o conduzisse até ao limiar da eternidade. O coronel Merlin, seu juiz, está presente.
Rossel quer que lhe façam sciente de que não morre odiando-o, e pede ao seu derradeiro amigo, ao bom Passa, para que lhe ponha a venda.